domingo, 14 de agosto de 2011

Veja bem, meu bem

Tem aquela hora do dia (ou aquele fim de semana, ou aquele início de mês) em que você não consegue olhar ninguém no olho, mas tem que olhar. É chato como a gente tem sempre que olhar os outros no olho. Nos olhos, nos dois olhos, que saco. Um dos seus olhos mirando a cara inteira de outra pessoa, de várias pessoas, de todas as pessoas, chega de pessoas! Acaba o estrabismo distorcendo a conversa, tirando o foco do assunto - que começou só pra passar o tempo - mas ninguém se importa muito desde que você não solte a corda invisível que se estende daqui até ali, entre o espaço do meu e do seu nariz, a interação social não passa de um grande cabo-de-guerra de córneas sem atletas no banco de reservas, suas pupilas têm de ficar dilatadas até o final.
Mas então tem aquela hora que eu falei, aquela hora do dia em que você não quer olhar ninguém. Nessa hora me surpreendo encarando colegas e amores através do espelho, deixo os reflexos conversarem por nós, o olho do meu reflexo olhando no olho do reflexo de qualquer-um, são projeções de luz que se compreendem sem esforço, posso ficar de costas para você e, ainda assim, te olhar, parece bonito, parece poesia, mas é só cansaço mesmo, não tem beleza nenhuma em deixar um reflexo conversar no seu lugar, no meu lugar, parece que estou sozinha no desprezo de fixar o olhar.
Detesto me colocar como única nas situações que descrevo, mas é espelho, né? Não tem jeito, querendo você ou não, eu vou estar ali. Coloco minhas lentes para corrigir a miopia, o astigmatismo e o narcisismo, mas de nada adianta. A cada olhada que dou em você demoro três outras em mim, ajeito o cabelo, arranco um coágulo de sangue em cima da sobrancelha, sangue fora de validade parece carvão, é tudo meu, mas você não percebe que só olho pra mim mesma pois quero entender como você me olha, quero saber o que pareço pra você. Mas você também parece que só se olha, que penteado mais ridículo, é o que quero dizer, mas não digo, percebo que não quer que eu me vire pra olhar meu olho de verdade ao invés do meu olho-imagem, que bom, é bom mesmo, estou de fato cansada de olhar no olho, já disse que estou naquele pedaço do mês em que não consigo me segurar em olhos, me canso mesmo, me canso fácil desse jeito, não digo isso só porque te percebo desviando o olhar, me canso de verdade, fico feliz que a gente se entenda assim, conversa com meu reflexo, não faço questão de contato visual, que inútil essa coisa de olhar, é meio óbvio que se não posso olhar no seu olho não quero olhar no olho de mais ninguém.

Um comentário:

  1. Quebre o espelho e cante baixinho por telefone.

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