domingo, 27 de maio de 2012

Rio de Janeiro

O meu medo é que a gente deixe essa semana passar, que o mês inteiro passe, dois meses, um ano, sabe lá quantos anos a gente vai deixar passar. O meu medo é que a gente mude. Quer dizer, é claro que vamos mudar, a questão não é essa, minha preocupação é que é possível que deixemos esse tempo passar indefinidamente até eu não mais saber da sua vida, até você também não saber nada da minha, até sermos pessoas diferentes, separadas por incontáveis mudanças, milhares de minutos de distância, que nos impedirão de, algum dia, voltarmos para as pessoas que fomos, ou que quisemos ser - ou que pensávamos querer ser.
Nós não vamos nos esbarrar por aí como acontece nos filmes. Eu não vou ter a oportunidade de ver a sua felicidade de relance, de tramar contra o seu novo romance, de perguntar se ainda existe uma chance. Isto não é uma comédia romântica, não temos direito à rimas e à saudades. O traçado urbano abaixo de nós foi desenhado com o intuito de impedir o nosso encontro. Nosso primeiro esbarrão foi uma falha do acaso. Os outros que seguiram foram pura teimosia. A cidade foi construída pensando na nossa separação e, daqui a pouco, após uns tantos quadrados riscados do meu calendário, após eu perder a conta das tantas páginas e dias que se passaram, seremos aquelas pessoas as quais estamos destinados a nos transformar, com novos pensamentos, com ideias diferentes sobre o capitalismo, sobre as mudanças climáticas, sobre os personagens das nossas séries favoritas, estaremos em universos diferentes (veja o quão cafona você me fez ficar), separados por treze ou dezesseis estações de metrô que nunca se cruzam.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Chega de saudade

Essa é a última vez que eu escrevo para você voltar. Está certo que das outras vezes rasguei as cartas antes mesmo de assinar, mas você deveria saber, deveria ter previsto, deveria ter sentido minhas palavras urgentes viajando sobre os fios de cobre que enfeitam as calçadas e misturando-se à luz da sua casa, deveria tê-las visto escorrendo junto com a água do seu chuveiro e lavando o seu cabelo; contaminei todos os rios e as praias da cidade com minhas tóxicas palavras de amor. Os peixes estão morrendo, meu amor está consumindo todo o oxigênio que existe no mar, o mau cheiro já viajou pelo ar até a sua rua, mas você simplesmente fechou as janelas e ligou os ventiladores de teto, nem mesmo percebeu que os pescadores não fazem mais a feira-livre dos domingos. Me desculpe o incômodo, mas a putrefação foi o melhor jeito que encontrei para me comunicar.
Eu não vou pedir outra vez para você ficar. Não, é verdade, eu nunca de fato te pedi tal coisa, sua memória continua excelente, mas você não olhou nos meus olhos, não cheirou minhas roupas, não entrelaçou nossos dedos? Achei que tudo o que eu dissesse seria um desagradável pleonasmo às súplicas do meu corpo. Pensei que meu amor assim tão espalhado pela sala te faria ir embora ainda antes. De qualquer forma, você foi. Sempre sofri antecipadamente pelo vazio que se instalaria quando você fosse embora. Você foi. Não sei se foi realmente pelo meu amor ou se você inventou algum outro motivo estúpido para me manter inocente. Às vezes preferia não ter te dedicado amor nenhum, outras vezes penso que foi mesmo melhor que eu o tenha te dado por inteiro para que você o guarde, o deixe mofar, o dê de comer aos mendigos da praça, faça com ele o que bem desejar, desde que o leve para longe de mim. Continue indo embora de mãos dadas com o meu amor, não vá pela areia e cuidado com os peixes que você resolva comer no caminho, fora isso, pode ir sem se preocupar, eu, como sempre, desisti de pedir para você voltar.

domingo, 1 de abril de 2012

Não vou pensar

Eu não vou pensar em você hoje. Não vou pensar nos seus olhos fechados, e depois não vou pensar neles abertos. Não vou imaginar como fica a minha própria imagem de cabeça para baixo, quando projetada na sua retina. Não vou pensar no diâmetro das suas pupilas e muito menos na coloração das suas mucosas. Não vou pensar na profundidade das suas órbitas ou na inervação motora das suas pálpebras. Os movimentos dos seus olhos podem pertencer à qualquer um enquanto eu não estiver pensando em você.
Eu não vou pensar nas rachaduras dos seus lábios e nem nos sorrisos que escapavam por ali, não vou verificar se tem cianose, não vou me preocupar com a sua hidratação, nem mesmo vou pensar no sabor da sua saliva e em tudo o que eu esqueci de dizer, não vou me lembrar das últimas palavras que eu ouvi de você - nem das primeiras. A sua voz pode pertencer à qualquer um enquanto eu não estiver pensando em você.
E, finalmente, eu não vou pensar no seu calor intoxicante entupindo meus poros, eu não vou pensar nas suas roupas amassadas e quentes caindo no chão, eu não vou pensar na sua febre nem no meu termômetro, eu não vou pensar em encostar em você. Eu não vou pensar em você. Hoje.

sábado, 17 de março de 2012

E você, já morreu hoje?

A morte é um polímero. É uma combinação de todas as pequenas fatalidades que te trouxeram até o presente dia, das incontáveis vezes em que você teve que morrer para se desprender, desligar, desapegar, crescer. Cada ciclo que se conclui é uma nova morte para a sua coleção. Cada última vez e cada nunca mais te propulsionam um pouco mais para longe do ponto inicial, te preparam um túmulo de pedra gelada aonde você pode largar aquele sonho que acabou, que se realizou ou do qual você desistiu.
Quando te conheci, morri uma vez, encobri com terra a minha realidade de tantas mortes sem importância, quais foram mesmo as causas das minhas mortes de antes?, quando te beijei, morri pela segunda vez, a partir dali não saberia mais viver longe do calor e da umidade, nunca mais me importei com os dias de frio, quando nos casamos em meu pensamento, morri pela terceira vez, foi uma linda cerimônia, uma pena você ter perdido, depois disso eu só conseguia ressuscitar ao seu lado, morria mil vezes durante o dia e me deixava continuar morta até te reencontrar, foi a mais poética de minhas mortes, vivia quase a semana inteira em meu corpo de cadáver, apodrecendo diante da vista indiferente das pessoas (estas preocupadas apenas com a gravidade de suas próprias mortes diárias para prestar atenção no grau avançado de minha decomposição), enquanto esperava o ônibus, cortava as unhas, salgava as batatas e, só então na sua presença, me permitia voltar a viver.
Agora morro novamente. Morro em um ato lento e contínuo. Esta morte se prolonga de modo como se não quisesse me deixar morrer, não desta vez, e equilibro as outras mortes que querem desabar sobre mim enquanto esta não acontece. Espero saber ressuscitar tão bem como você me ensinou.
O bom das lágrimas é que elas não deixam cicatrizes, imagine você, tantas que são essas mortes pelas quais tenho que chorar. Só eu sei quantas mortes eu já morri nesta vida, estou sempre vestida para o próximo funeral.

terça-feira, 6 de março de 2012

Anquilose

A noite me transforma em bloco e, por muito pouco, não chego a ser de carnaval, de rua, de gente. Saio em bloco de mim, com o ranger melódico das articulações inflamadas fazendo as vezes de samba.
A manhã se refresca com a minha rigidez.
Amanhã, com sorte, o cimento já não vai mais estar tão fresco, vai ser mais fácil levantar, vai ser melhor, isto é, se amanhã conseguir evitar o desprazer de vir a existir. O amanhã era muito mais agradável ontem, você vai ter que concordar, quando a gente sabia que ele não existia, quando ele parecia somente mais uma brincadeira da nossa doença, quando o corpo já estava mais curto e macio pelo fim do dia. O amanhã está calcificado na sua presença de hoje, faz uma vértebra consolidar-se na outra para impedir o movimento, impedir que eu caminhe até o dia seguinte, não precisava de ajuda, eu já me arrasto para longe.
Sei que você reserva o futuro especialmente para a morte, está certo, é à ela mesmo que ele pertence, nós temos ainda esses fantasmas de nós mesmos e os glicocorticóides, não precisamos de futuro.
Minha inflexibilidade cresce assimétrica.
O amanhã existe cada vez menos conforme a fusão do nosso eixo axial se torna completa, mas que sorte a nossa.
Minha rigidez se renova pela manhã.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Coração no bolso

Gostaria de colocar o coração no bolso enquanto jogo essas intermináveis partidas de tênis com minhas próprias vísceras. Estou tentando cortar a carne em cubos perfeitos para que você coloque no pão e faça um sanduíche bem torto, cheio de pedaços caindo pelas beiradas; meu estômago mal-passado parece ser o que você mais gosta.
Engoli daquela sua terra com larvas de borboletas e pela minha boca saíram ramos e folhas de bananeira, brotos de feijão presos nas narinas os quais nem mesmo posso me atrever a tirar, pois é falta de educação, “Olhe esta menina sem boas maneiras cutucando o nariz”, “Mas estou apenas tentando me livrar de um broto de feijão que plantei sem querer no estômago”; ninguém acredita e tenho que andar pelas ruas me esquivando dos jardineiros e podadores de árvores para que, meu Deus, não me arranquem o nariz.
Ando, então, aos tropeços, como uma criança que assistiu a um filme de terror desacompanhada e que agora vê atividades paranormais em cada brisa que lhe balança os cabelos. Peço, por favor, para que segurem meu coração enquanto corro atrás do ônibus, para que não deixem que ele caia no chão, mesmo ele não sendo de ninguém, ainda sinto que preciso cortá-lo simetricamente e cozinhá-lo um pouco mais para que quem tome o próximo pedaço não passe mal logo na primeira mordida. Puxe esta árvore que cresceu dentro de mim pelas orelhas, me ajude a devolver os filmes de monstros que aluguei, preciso encontrar alguém que segure meu coração enquanto termino de me escaldar em óleo fervendo para a próxima refeição, alguém que segure meu coração até que eu esteja pronta para voltar e buscá-lo.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Sobre o otimismo e as ruas de pedra

Eu conheci um otimista na infância. Ele era um pouco mais baixo do que eu, tinha olhos claros e a pele vermelha, falava baixo e nunca mostrava os dentes durante as refeições. Nós crescemos juntos, passando todos os verões, até o princípio da puberdade, viajando para a região dos lagos para aproveitar melhor o sol. Ele me dizia que o otimismo tinha quatro pares de patas e me mostrava cada uma delas na areia, saindo de um cilindro assimétrico que desenhava com o dedo, pois naquela época eu não sabia ainda fazer contas e precisava ver que eram oito com clareza para entender como podia o otimismo subir pelas paredes e tecer em apenas uma noite enormes teias de seda para se pendurar no teto.
Aos treze anos, mais ou menos, ele me disse que não mais me acompanharia nas viagens de fim de ano e, quando perguntei o porquê, apenas me disse que preferia as ruas asfaltadas entre as feitas de pedra. Não soube dele desde então e, no ano seguinte, resolvi criar dentro de um pote de plástico com algodão molhado o meu próprio otimismo.
Meu pequeno otimismo cresceu com um esqueleto rígido envolvendo seu corpo diminuto e se alimentava uma vez por dia de pequenas porções de rotina que eu colocava na beirada do seu algodão. Em pouco tempo, cresceram nele presas curtas e enegrecidas as quais enfiava com alegria nas pequenas bolotinhas de rotina, desenvolvendo o estranho hábito de sugar de uma só vez seu conteúdo mole e gratificante, deixando penduradas no tecido que contornava o plástico carcaças recheadas de um tédio pegajoso que introduzia no lugar e envoltas em fios de desespero que desenrolava da própria saliva.
Meu otimismo, então, tinha quatro pares de patas, três segmentos de corpo e um esqueleto sólido envolvendo o tórax. Vivia nos pequenos paraísos de escuridão do meu quarto e entrava nos sapatos suados e impregnados de boas intenções passadas de prazo que eu costumava colocar para arejar em algum desses cantos aonde o frescor da madrugada fazia a curva durante a noite; entrava nos sapatos e esperava pacientemente para inocular suas toxinas na minha pele vulnerável quando eu chegava para esmagá-lo pela manhã.
Demorou bastante tempo até que eu compreendesse que o otimismo é a ruína da rotina e do convívio diário e percebesse que os otimistas, dentre as suas tantas peculiaridades, jamais andam olhando para o chão e, por isso, enfiam os saltos nas porções de terra entre os calços das ruas de pedra.
Portanto, antes que me arrancasse o privilégio de andar de cabeça baixa e de contar as vezes que meus pés tocam as linhas da calçada, resolvi que não podia mais criar a criatura selvagem dentro de um apartamento (talvez se eu morasse em uma casa com jardim, quem sabe). Deixei meu otimismo em um retiro de artistas, para que não se consuma sozinho com suas próprias expectativas, para que emoldure seus sonhos e os pendure em uma parede amarela de tinta e velhice, para que assista o desengano alheio explodindo em uma constante festa de despedida ao seu redor e não se sinta tão sozinho como na minha gaveta ou no meu sapato, comendo do pouco que restou dentro de mim para alimentá-lo além da realidade.