sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Três coisas difíceis

3 coisas difíceis sobre a vida:
1- o sentir
2- o não-sentir
3- o sentir mais ou menos
O sentir é difícil pelo medo que o envolve de, um dia, não se sentir mais. O sentir é bonito, porém perecível, o sentir não pode ser doado em feiras de caridade, como um saco de arroz ou uma lata de leite em pó, o sentir precisa ser consumido na hora. O sentir começa a partir do estímulo de um terceiro, mas é intransferível, ele pode ser recíproco e compartilhado, mas é indivisível, o sentir enche a barriga e satisfaz a fome, mas é sempre arriscado de se guardar na geladeira quando sobra um pouco do sentir depois do jantar; alguém pode comer o seu sentir por engano ou, se você esquecê-lo por tempo demais, o sentir pode facilmente se estragar. E, então, você não sente mais.
O não-sentir é difícil pois não tem um prazo determinado de validade, ele é resistente às traças e aos cupins, pode ser congelado ou colocado em um tabuleiro de assar, pode ser usado como isca para a pesca ou como capa de chuva, o não-sentir é versátil e você o encontra em qualquer lugar. O não-sentir carrega o sentir nos braços por toda a extensão do amor ou da vida, o não-sentir, muitas vezes, instala-se em um determinado local por tanto tempo que se confunde com o sentir. O não-sentir se mistura com o sentir quando sai da boca das pessoas, as pessoas falam e você não consegue diferenciar se aquilo é sentir ou não-sentir. O grande medo que paira ao redor do não-sentir é exatamente o de se passar a vida pensando que o não-sentir é sentir. O não-sentir é o disfarce, o sentir é o espetáculo (ambos uma mentira).
O sentir mais ou menos é o caminho do meio, é difícil seguir o caminho do meio. É difícil sentir mais ou menos quando o sentir está fresco e a preço de custo, é difícil sentir mais ou menos quando o não-sentir já se alastrou e se solidificou pelos caminhos por onde o sentir costumava passar. O sentir mais ou menos é difícil de ser explicado pois eu acabei de inventá-lo, não existe sentir mais ou menos.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Já não há mais coração

O nosso amor é como aquele livro que você me deu e que eu nunca li, perfeito na sua condição imóvel, tentador pelas possibilidades que carrega, irresistível em seu formato, em sua leveza, em seu cheiro de novidade, sem rugas, sem manchas, sem dobras, excelente para o comércio e para a troca. Já o abri com cuidado uma vez ou outra, para ver se ainda tinha cheiro, para ver se já não tinha traças, porém não me interessei pela sua sinopse, nunca me atrevi a avançar da primeira página, aonde está a sua dedicatória de três linhas, três linhas e ali jaz para mim o romance inteiro.
Fantasio com uma leitura repleta de metáforas e mensagens encriptadas que você talvez gostaria que eu desvendasse, sonho com um livro fluido e empolgante que vou recomendar para os amigos e, depois, vou delirar de ciúmes pelo entusiasmo dos amigos, imaginando que, enquanto lêem, eles também estarão pensando em você.
As páginas do nosso livro não têm marcas de dedos, nem dos meus dedos e nem dos seus dedos, as palavras dos nosso livro não formam frases, formam lembranças distantes, daquelas lembranças que lembramos com carinho por não sabermos mais como realmente aconteceram, apenas queremos que sejam boas, apenas queremos que tenham existido de verdade, os parágrafos do nosso livro não têm pontuação, são sentidos pelo ritmo da leitura (ou da não-leitura), são feitos de mudanças e de vazios, e os vazios nunca são feitos para serem lidos - ou seriam os vazios as partes mais importantes da leitura?
O nosso amor está, sim, naquele livro fechado e aderido à prateleira que você me deu sem também ter lido. No início me pareceu um desperdício, um desserviço do amor para com a arte, uma pobreza ter um livro para nunca tocá-lo, uma afronta guardar palavras, esconder palavras, manter folhas e mais folhas de palavras em cativeiro. Não obstante, o livro manteve seu papel lúdico e, no seu silêncio, não destruiu nenhuma das nossas ilusões, nem as minhas ilusões e nem as suas ilusões, nosso livro parece mais livro enquanto continua fechado, pois acredito que, assim como eu, você tem medo de abri-lo e não gostar da história, e devo dizer que uma ilusão sempre vale mais do que uma leitura.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Perfume

Comprei um vidro do seu perfume e encharquei a minha casa de você, derramei você nos livros, nos travesseiros e nos lençóis, te derramei nos sapatos e te deixei grudar nas minhas meias, te espalhei pelos cabelos e pelas dobras do corpo, te misturei nas fontes de água e tomei banho com você, tomei banho de você. Tomei esse banho e depois não tomei nenhum outro mais, deixei o seu cheiro ressecar e formar crostas, deixei você cair da minha pele e virar poeira, parei de varrer a casa e tudo o que eu tenho virou também poeira.
Pensei que não era o bastante e resolvi te derramar ainda nas minhas roupas, nas roupas dos meus pais, dos meus avós, dos meus amigos, nas roupas que ficam expostas nas vitrines das lojas, nos tecidos sem forma que irão tornar-se roupas, nos fios de náilon, nas crianças chinesas, nas plantações de algodão, na máquina de lavar. Quero sete bilhões de pessoas cheirando à você. Quero sete bilhões de você cheirando à pessoas. Quero você cheirando à você, já gastei todo o perfume.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Caixas vs. envelopes

Estou rastreando pelo computador uma encomenda que enviei pelo correio, enviei quatro caixas e tenho medo que se percam no caminho. Meu plano original era enviar tudo dentro de envelopes pardos, comprei quatro envelopes na semana passada, mas só fui ver que minhas encomendas não cabiam nos envelopes quando estava já na agência, chovia muito do lado de fora e eram três e quinze da tarde, o correio fecha às quatro horas. Coloquei tudo de volta nos sacos e me preparei para sair em busca de envelopes maiores, não sei se existem envelopes maiores do que aqueles que eu tinha, eu teria que sair e procurar, mas, quando eu já estava com a mão esticada em direção à porta, o homem que trabalha no correio me chamou e disse para eu usar uma caixa, eu respondi que precisava de envelopes, ele me mostrou uma caixa e eu insisti que queria envelopes, "eu preciso de envelopes", foi o que eu disse, ele falou que os envelopes iriam rasgar, que minhas encomendas eram muito pesadas, eu segurei a caixa que ele me entregou e perguntei se ele vendia envelopes ali mesmo no posto de correio, ele disse que não, só caixas; olhei a caixa, olhei a chuva do lado de fora, neste exato momento um funcionário abriu a porta e deixou entrar um vento úmido e gelado na loja, que se fodam os envelopes, pensei, e resolvi usar mesmo as caixas. Minha encomenda era uma coisa séria, diziam as regras que eu deveria mandar tudo em envelopes, não importam as regras de quê, o importante é que decidi usar quatro caixas em vez de quatro envelopes, porém coloquei os envelopes vazios e pequenos demais dentro das caixas, queria que soubessem que minha intenção era usar envelopes.
O homem ficou contente, "como é bom poder ajudar as pessoas", foi algo assim que ele me disse, quer dizer, lembrando bem, foi exatamente isso o que ele disse, "como é bom poder ajudar as pessoas", estou agora pensando se era apenas um funcionário satisfeito ou se era um homem sensível que viu estampado na minha cara o tanto de ajuda que eu, de fato, precisava. Eu vivo precisando de ajuda, de ajuda e de envelopes, vendo assim, trocar meus envelopes por caixas era o melhor que o homem dos correios podia fazer por mim, mesmo eu não querendo caixas, mesmo eu querendo envelopes. Eu agradeci e peguei meu dinheiro para pagar o serviço, o homem segurou as notas com força e sorriu para mim, "quando você entrou pela porta eu soube que o que você precisava era mesmo de uma caixa", ele disse e é, é verdade, moço-dos-correios, hoje você acertou, mas às vezes eu preciso de mais do que envelopes ou caixas, o que você me sugere?

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Sobre a existência

Eu existo, ou quase existo.
Você existe, existe demais.
Existimos em tempos diferentes e em tempos iguais, você desde o início existiu mais do que eu e existe todos os dias, eu existo uma só vez no mês e, em certos meses, até mesmo me esqueço de existir, você não se esquece de existir nem nos minutos em que ninguém está prestando atenção na sua existência, faz questão de ocupar as horas por completo, é difícil encontrar um momento em que você não tenha existido - e você não existiu em vários momentos.
Há quantos anos você existe de verdade?
Se você tivesse começado a existir há alguns anos atrás eu teria escrito o seu nome vinte e cinco vezes em uma folha em branco e colado na porta do armário, naquele tempo eu iria me poupar de refletir sobre a sua ausência, ficaria satisfeita em saber o seu endereço, sobrenome e apelido, ficaria contente em existir paralelamente.
Você existe há mais tempo do que eu, isso é verdade, mas não existiu na hora certa, você resolveu existir de um jeito errado, resolveu existir por cima de mim, resolveu cobrir minha existência com a sua e existir em um espaço lotado aonde eu não posso existir também. Eu não posso deixar de existir além do que eu já não existo para abrir espaço para você existir ainda mais, os arredores da minha existência estão vazios, você poderia ter sempre existido por aqui.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Cinquenta e nove e meio

Você me liga e eu quero te contar do meu dia, a sua voz está fria e eu quero falar de amor.
Me esforço para que minha voz pareça tão indiferente e distante como a sua já é naturalmente, então falo exatamente o oposto de tudo o que estou pensando, só fico satisfeita quando a frase me parece bastante cruel aos seus ouvidos (acho que você aguenta), mas seu tom permanece inalterado, vejo que acha graça das minhas maldades, a sua risada morna esquenta a minha orelha pelo telefone, minhas crueldades de amor não têm efeito algum sobre você.
Quero entrar na sua voz. Quero morar na sua voz.
Quero gravar minhas iniciais com uma navalha nas suas cordas vocais - o nó que a gente deu ficou frouxo demais.
Eu gosto de te ouvir enquanto coleciono palavras. Sua voz é muito fácil de desmembrar. Antes mesmo de você ir embora eu já colecionava essas palavras. Estúpidas. Desesperadas. Viscosas. Essas palavras que eu sabia que deixaria de dizer. Tenho hoje tantas delas guardadas que me pergunto, com uma certa surpresa, sobre o que conversávamos.
Mas que tolice a minha, nós não conversávamos.

domingo, 12 de agosto de 2012

Sobre Paris

No início desse ano eu fiz uma viagem para a europa que durou mais ou menos um mês. Eu não comentei sobre isso porque voltei para casa com a sensação de que não tinha prestado atenção em nada. O que foi bastante verdade. Eu experimentei vários sabores de sorvete, eu ouvi vários pedaços de história, eu tomei banho em vários lugares inconvenientes, mas eu não prestei atenção em muita coisa. Quando a gente viaja, a gente perde a capacidade de observar, eu acho (a maioria das pessoas perde, pelo menos). A observação vem da exaustão, quer dizer, observar, prestar atenção, é exaustivo. Observar não é sinônimo de parar em frente a um quadro e admirar, ou de suspirar ante uma paisagem bonita, ou de olhar. Observar é se cansar na frente do quadro, é descobrir o tédio de uma obra de arte que você, a princípio, tinha achado interessante, é desistir de fotografar a paisagem dos cartões-postais porque já enjoou de tanto olhá-la. Não dá tempo de observar quando você é turista. Você quer ser turista e fazer coisas de turista, quer parecer simpático na hora de pedir informação, quer pedir informação toda hora, quer esconder o mapa e tentar se virar com a língua estranha, quer comprar objetos que você nunca vai usar, quer tirar fotos que você nunca vai olhar. É bom querer ser turista. Ser turista é ver um monte de coisas velhas pela primeira vez. Ser turista é ser um pouco criança de novo.
É bom ser turista, mas é ruim voltar para casa sem nada na cabeça, só com as lembranças superficiais e meio tortas que vão se deformando mais e mais a cada vez que você tenta recontá-las. Eu, frequentemente, voltava a ficar triste pensando que tinha perdido a minha oportunidade de prestar atenção em lugares aonde eu provavelmente não poderia voltar. Ficava triste até que achei um caderno que eu levei para a viagem aonde está um parágrafo pequeno sobre o que eu achei de Paris. Eu não esperava gostar nada de Paris, eu não tirei fotos, eu não esperava sequer me lembrar de Paris, mas eu, hoje, com tão pouco entusiasmo pelas coisas, gosto de ter esse parágrafo. Paris foi o único lugar em que eu fui sozinha, passei lá os últimos dois dias da viagem e, só agora, quase oito meses depois, eu percebi que prestei atenção em alguma coisa, e ter prestado atenção por dois dias me deixou feliz.
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"Paris tem alguma coisa de esquecida e de muito povoada que a faz bonita, o metrô fica cheio, mas as ruas são vazias, Paris tem moradores logocentristas que gostam de usar a metalinguagem e que ainda pensam que a feiúra do corpo representa a feiúra da alma, Paris parece que gosta de criar almas. Em Paris, você vê a nudez feminina eternizada nas varandas, exposta nos habitantes, mesmo quando estes estão cobertos de casacos, Paris fica muito fria no inverno, mas é essencialmente feminina, vive da simbiose entre estátuas e mulheres, tem uma iluminação leitosa por toda parte e, às vezes, você sente o cheiro até da água. Somente os ricos esnobes e metidos (e que querem aparecer para os amigos) falam que Paris tem um cheiro fedido, Paris tem um cheiro forte de todas as coisas, essa é a verdade, mas "forte" não é necessariamente ruim, você só tem que aprender a separar os cheiros, separar os adjetivos, em Paris é tudo uma questão de linguística."