sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Desnamorados

"Um livro colaborativo sobre o amor", e é isso mesmo, nem vou tentar dar uma explicação melhor ou mais elaborada. Aqui está o link para o vídeo explicando melhor como o livrinho nasceu: http://vimeo.com/88946380 e achei muito bonito poder fazer parte desse projeto tão bacana e cheio de textos inspiradíssimos sobre o amor (e de finalmente ter o livro físico em mãos).
O livro está à venda aqui:  http://loja.editoraempireo.com.br/
E o meu textinho, a quem interessar possa, é esse aqui:
 


Se não gostaram do meu, não desanimem, porque tem muita coisa ótima escrita nesse livro e vale a pena ter em casa sim, ok?

sábado, 2 de agosto de 2014

O amor moderno

sonhei com você
três vezes essa semana
e decidi te deixar escolher
o melhor lado da nossa cama

já decorei o seu sorriso
dente por dente
sei recitar o seu telefone
de trás para frente

posso preencher seu formulário do hospital
se você ficar doente
sei das suas alergias
e das alergias dos seus parentes

tenho cópias da sua carteira de motorista
coloridas e em preto e branco
sei que não gosta de poesia
e que assiste filmes do James Franco

comprei um rastreador
para implantar na sua pele
e controlar seus movimentos
via satélite

você vai esbarrar comigo
pensando que foi sem querer
eu vou sorrir e dizer
"que prazer em te conhecer"


sexta-feira, 27 de junho de 2014

A gente esquece

A gente esquece. A gente esquece onde guardou as chaves, o que comeu ontem no almoço, o aniversário de um amigo próximo, o endereço de um amigo antigo, o telefone do primeiro apartamento em que morava, o que estava fazendo no dia onze de setembro, como era a vista da janela antes de construírem um prédio na frente, a cor dos olhos de alguém, o ano de um furacão ou tsunami, a gente esquece na gaveta a carta que nunca colocou no correio e o aparelho celular dentro do táxi, as fotos que não couberam em álbuns, as roupas que eram moda há dez anos atrás, a senha do cartão de crédito, o melhor verão da sua vida, o inverno mais frio, o gosto da comida do avião, a voz de alguém que já morreu, o caminho da escola, os filmes de suspense, as comédias românticas, as regras dos jogos de tabuleiro, a receita do bolo de cenoura, o ano das últimas eleições, as piadas das quais achava graça, os livros com citações grifadas, o gosto de um beijo, o cheiro de um perfume, as rimas de um poema, o porquê de ter se apaixonado, as fórmulas matemáticas, as letras de uma música, o nome de um conhecido, o preço do jornal de sempre, o rosto do motorista do ônibus parador. A gente esquece gente que a gente nunca achou que fosse esquecer e a gente esquece como é difícil esquecer um tanto de coisas que a gente quer esquecer. A gente simplesmente esquece e também esquece de esquecer.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Inverno no rio

No rio de janeiro você não precisa de ninguém para te aquecer, faz calor aqui o ano inteiro, e os poucos dias de inverno são insuficientes para te fazer esquecer que o bom mesmo é dormir sem roupas e sem braços quentes duplicando o seu suor. O ventilador dos quartos constantemente ligado me provoca uma inveja dolorosa das cidades que proporcionam aos seus habitantes ao menos um ou dois meses de frio, mas quem vive no calor sabe bem como usar panfletos de papelão duro para se abanar e como arranjar os momentos de isolamento indispensáveis para encontrar suas pequenas alegrias diárias.
Eu, particularmente, gosto das camas enormes e desnecessárias em que não faz diferença se mais alguém dormir ou não ali, você pode dormir com os braços abertos e pegar todo para você o pouco de vento que a madrugada oferece, gosto das pessoas que não ultrapassam o limite implicitamente demarcado, gosto dos ônibus vazios e de maldizer as pessoas que sentam-se ao meu lado transmitindo o calor do corpo através do estofado, gosto de andar pela rua sem dar as mãos e sem precisar secar o suor de alguém na minha própria calça, gosto de acenar de longe e de mandar mensagens de texto, de comentar sobre um filme bom que eu vi sozinha no meu quarto com o ar-condicionado ligado, gosto das pessoas que conversam sem te tocar, gosto de pegar com a colher o sorvete meio derretido que escorre para o fundo do pote sem ninguém me observar, gosto de deitar no chão da cozinha para me refrescar e de grudar a língua na parte interna do congelador.
Nós que somos cariocas aprendemos desde pequenos a independência que o calor traz, aprendemos a montar piscinas improvisadas que só comportam uma pessoa, aprendemos a encontrar sozinhos o caminho de volta do mar até a barraca dos nossos pais, aprendemos a mentir e trair amizades para tomar banhos longos e desejados, aprendemos boas técnicas para abrir garrafas de cerveja, aprendemos a levar na bolsa uma muda de roupas para emergências e, principalmente, aprendemos a usar os melhores cubos de gelo no nosso próprio copo.
No rio de janeiro não tem chocolate quente e não tem hora do chá, não tem dormir abraçado e não tem lareira ou coberta de lã, a gente dorme sem meia e arde a pele quando encosta em outro pé, não tem festa no telhado e não tem dia de neve para ligar para alguém que queira ficar com você de casaco e enrolado, no rio de janeiro você tem que ficar com alguém por amor mesmo, não para se esquentar.

domingo, 1 de junho de 2014

Mas eu não quis

lembro exatamente daquele dia
em que você me pediu um beijo
e eu dei risada
ri tanto e ri tão alto
que a festa inteira ouviu
e quiseram saber também
o motivo da gargalhada
você me olhou sorrindo
eu achei que não estava errada
e que o beijo era um pedido falso
de uma amizade descomplicada

mas hoje me lembro ainda
que eu poderia ter te beijado
se eu quisesse

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Poesia para quem não sabe ler

escrevo cartas
e poemas
e novelas
e roteiros

escrevo datas
e recados
e bilhetes
e listas de compras

escrevo todos os dias
e escrevo de vez em quando

você não sabe ler
e não quer aprender
é analfabeto e assina o nome,
assiste filmes, dorme e come

eu escrevo
e você nem sabe
da existência das minhas palavras,
pensa que sou também analfabeta
e que não sei escrever
igual a você

você não sabe me ler
e eu não sei te ensinar a aprender

sábado, 21 de dezembro de 2013

Última vez

A gente disse adeus e não quis se levantar. Por algum motivo, sabíamos que essa seria a última vez. Já nos despedimos tantas vezes, mas só naquele momento pareceu um adeus de verdade, e era difícil levantar, o banco de pedra nos puxava para baixo, ao menos eu sentia que me puxava, não sei se você também o sentia puxar ou se era eu quem estava usando a força do banco para te manter ali, não o banco; eu estou feliz, você disse, e o banco pesou ainda mais, não está, eu respondi, e o meu rosto queimou de vergonha por apontar a sua infelicidade, você estava amando e não estava feliz, era melhor então não amar, eu queria ter dito, mas fiquei calada, a gente precisava mentir para poder se levantar.
As pessoas que jogavam dominó na praça te olhavam chorar, será que elas estão ouvindo o que eu estou dizendo?, você perguntou, as pessoas não resistem às lágrimas, precisam olhar, precisam saber dos nossos motivos, dos nossos machucados, das nossas escolhas erradas. Olha para mim, e você não olhava, olha para mim, e você não olhava, por favor, eu disse, e você me mostrou a cara inchada e vermelha, estava triste por pena de mim, pensei, achei que nessa hora você ia se levantar para me dar um abraço, mas imagino que o banco pesado demais tenha te prendido no lugar. Era a nossa última escolha, não é uma escolha, você disse, mas era a nossa última escolha. Eu segurava a sua mão e você usava a mão que eu tinha escolhido segurar para limpar o rosto, eu fingia não perceber e segurava a sua mão outra vez, você já tinha ido embora, todas as outras vezes já tinha ido embora, mas a sua mão ficava ali, eu podia segurar sua mão para sempre, mesmo depois da última despedida, mesmo quando você não existisse mais, eu podia segurar o fantasma da sua mão, eu ainda tinha medo de você morrer sem eu saber.
Tinha medo de você morrer longe, na sua nova casa, tinha medo de que o seu novo amor te vestisse com roupas brancas e te colocasse em um caixão de madeira e eu continuasse segurando a sua mão, tinha medo de passar anos segurando a mão de um cadáver e não perceber seus ossos decompondo-se dentro dos meus dedos fechados, precisava abrir a mão que segurava a sua e te deixar ir embora, precisava deixar você levantar depois do nosso último adeus, precisava te deixar morrer daqui a vinte minutos ou sessenta anos, algum dia você irá deixar de existir de qualquer maneira, eu precisava deixar você existir do jeito que você escolheu, não é uma escolha, você repetiu, a última escolha nunca parece uma escolha.