Eu nunca fui uma pessoa completa. Há anos venho colecionando pedaços
de pessoas, pedaços pequenos que furto enquanto ninguém está olhando,
espero o momento exato em que alguém encontra-se distraído e arranco um
fragmento que acho que não irá lhe fazer falta. Vejo as pessoas ao meu
redor como imensas lojas de departamento que deixam em suas vitrines uma
permanente exibição de fragmentos de si mesmas, fragmentos que eu
preciso desesperadamente adquirir para colar em meu próprio corpo.
Minha
pele é um quebra-cabeças cheio de peças faltando, roubo centenas e
milhares de pedaços e tento encaixá-los todos em mim, pedaços tão
simétricos e arredondados que demoram um tempo incomodamente longo para
alinharem-se junto aos meus espaços disformes e com limites mal
definidos.
Me encanto por pessoas inteiras e me dedico a
desmontá-las aos poucos, me apaixono por seus pedaços e não consigo
controlar minha vontade de embaralhá-los, de tirá-los do lugar, de
espalhá-los pelo chão da casa ou jogá-los pela janela em um dia de
ventania. Me aproximo de pessoas inteiras apenas para que me permitam
rolar sobre seus pedaços e torná-las um pouco menos harmônicas, um pouco
menos estáveis dentro de seus corpos. Quero ganhar de presente de natal
pedaços de pessoas que um dia foram inteiras embrulhados em papel
colorido e andar de mãos dadas somente com aquelas que ficaram tão
despedaçadas quanto eu.
sábado, 25 de outubro de 2014
sábado, 20 de setembro de 2014
Manjericão
estou criando uma planta
venenosa, no quintal
e separo com uma tábua de madeira
a planta do resto da casa
não quero me esquecer por acidente
qual das plantas é a nova planta
e arrancar algumas de suas folhas
para colocar na comida
pensando que a planta venenosa
é um dos pés de manjericão
venenosa, no quintal
e separo com uma tábua de madeira
a planta do resto da casa
não quero me esquecer por acidente
qual das plantas é a nova planta
e arrancar algumas de suas folhas
para colocar na comida
pensando que a planta venenosa
é um dos pés de manjericão
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Desnamorados
"Um livro colaborativo sobre o amor", e é isso mesmo, nem vou tentar dar uma explicação melhor ou mais elaborada. Aqui está o link para o vídeo explicando melhor como o livrinho nasceu: http://vimeo.com/88946380 e achei muito bonito poder fazer parte desse projeto tão bacana e cheio de textos inspiradíssimos sobre o amor (e de finalmente ter o livro físico em mãos).
O livro está à venda aqui: http://loja.editoraempireo.com.br/
E o meu textinho, a quem interessar possa, é esse aqui:
Se não gostaram do meu, não desanimem, porque tem muita coisa ótima escrita nesse livro e vale a pena ter em casa sim, ok?
O livro está à venda aqui: http://loja.editoraempireo.com.br/
E o meu textinho, a quem interessar possa, é esse aqui:
Se não gostaram do meu, não desanimem, porque tem muita coisa ótima escrita nesse livro e vale a pena ter em casa sim, ok?
sábado, 2 de agosto de 2014
O amor moderno
sonhei com você
três vezes essa semana
e decidi te deixar escolher
o melhor lado da nossa cama
já decorei o seu sorriso
dente por dente
sei recitar o seu telefone
de trás para frente
posso preencher seu formulário do hospital
se você ficar doente
sei das suas alergias
e das alergias dos seus parentes
tenho cópias da sua carteira de motorista
coloridas e em preto e branco
sei que não gosta de poesia
e que assiste filmes do James Franco
comprei um rastreador
para implantar na sua pele
e controlar seus movimentos
via satélite
você vai esbarrar comigo
pensando que foi sem querer
eu vou sorrir e dizer
"que prazer em te conhecer"
três vezes essa semana
e decidi te deixar escolher
o melhor lado da nossa cama
já decorei o seu sorriso
dente por dente
sei recitar o seu telefone
de trás para frente
posso preencher seu formulário do hospital
se você ficar doente
sei das suas alergias
e das alergias dos seus parentes
tenho cópias da sua carteira de motorista
coloridas e em preto e branco
sei que não gosta de poesia
e que assiste filmes do James Franco
comprei um rastreador
para implantar na sua pele
e controlar seus movimentos
via satélite
você vai esbarrar comigo
pensando que foi sem querer
eu vou sorrir e dizer
"que prazer em te conhecer"
sexta-feira, 27 de junho de 2014
A gente esquece
A gente esquece. A gente esquece onde guardou as chaves, o que comeu ontem no almoço, o aniversário de um amigo próximo, o endereço de um amigo antigo, o telefone do primeiro apartamento em que morava, o que estava fazendo no dia onze de setembro, como era a vista da janela antes de construírem um prédio na frente, a cor dos olhos de alguém, o ano de um furacão ou tsunami, a gente esquece na gaveta a carta que nunca colocou no correio e o aparelho celular dentro do táxi, as fotos que não couberam em álbuns, as roupas que eram moda há dez anos atrás, a senha do cartão de crédito, o melhor verão da sua vida, o inverno mais frio, o gosto da comida do avião, a voz de alguém que já morreu, o caminho da escola, os filmes de suspense, as comédias românticas, as regras dos jogos de tabuleiro, a receita do bolo de cenoura, o ano das últimas eleições, as piadas das quais achava graça, os livros com citações grifadas, o gosto de um beijo, o cheiro de um perfume, as rimas de um poema, o porquê de ter se apaixonado, as fórmulas matemáticas, as letras de uma música, o nome de um conhecido, o preço do jornal de sempre, o rosto do motorista do ônibus parador. A gente esquece gente que a gente nunca achou que fosse esquecer e a gente esquece como é difícil esquecer um tanto de coisas que a gente quer esquecer. A gente simplesmente esquece e também esquece de esquecer.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Inverno no rio
No rio de janeiro você não precisa de ninguém para te aquecer, faz calor aqui o ano inteiro, e os poucos dias de inverno são insuficientes para te fazer esquecer que o bom mesmo é dormir sem roupas e sem braços quentes duplicando o seu suor. O ventilador dos quartos constantemente ligado me provoca uma inveja dolorosa das cidades que proporcionam aos seus habitantes ao menos um ou dois meses de frio, mas quem vive no calor sabe bem como usar panfletos de papelão duro para se abanar e como arranjar os momentos de isolamento indispensáveis para encontrar suas pequenas alegrias diárias.
Eu, particularmente, gosto das camas enormes e desnecessárias em que não faz diferença se mais alguém dormir ou não ali, você pode dormir com os braços abertos e pegar todo para você o pouco de vento que a madrugada oferece, gosto das pessoas que não ultrapassam o limite implicitamente demarcado, gosto dos ônibus vazios e de maldizer as pessoas que sentam-se ao meu lado transmitindo o calor do corpo através do estofado, gosto de andar pela rua sem dar as mãos e sem precisar secar o suor de alguém na minha própria calça, gosto de acenar de longe e de mandar mensagens de texto, de comentar sobre um filme bom que eu vi sozinha no meu quarto com o ar-condicionado ligado, gosto das pessoas que conversam sem te tocar, gosto de pegar com a colher o sorvete meio derretido que escorre para o fundo do pote sem ninguém me observar, gosto de deitar no chão da cozinha para me refrescar e de grudar a língua na parte interna do congelador.
Nós que somos cariocas aprendemos desde pequenos a independência que o calor traz, aprendemos a montar piscinas improvisadas que só comportam uma pessoa, aprendemos a encontrar sozinhos o caminho de volta do mar até a barraca dos nossos pais, aprendemos a mentir e trair amizades para tomar banhos longos e desejados, aprendemos boas técnicas para abrir garrafas de cerveja, aprendemos a levar na bolsa uma muda de roupas para emergências e, principalmente, aprendemos a usar os melhores cubos de gelo no nosso próprio copo.
No rio de janeiro não tem chocolate quente e não tem hora do chá, não tem dormir abraçado e não tem lareira ou coberta de lã, a gente dorme sem meia e arde a pele quando encosta em outro pé, não tem festa no telhado e não tem dia de neve para ligar para alguém que queira ficar com você de casaco e enrolado, no rio de janeiro você tem que ficar com alguém por amor mesmo, não para se esquentar.
Eu, particularmente, gosto das camas enormes e desnecessárias em que não faz diferença se mais alguém dormir ou não ali, você pode dormir com os braços abertos e pegar todo para você o pouco de vento que a madrugada oferece, gosto das pessoas que não ultrapassam o limite implicitamente demarcado, gosto dos ônibus vazios e de maldizer as pessoas que sentam-se ao meu lado transmitindo o calor do corpo através do estofado, gosto de andar pela rua sem dar as mãos e sem precisar secar o suor de alguém na minha própria calça, gosto de acenar de longe e de mandar mensagens de texto, de comentar sobre um filme bom que eu vi sozinha no meu quarto com o ar-condicionado ligado, gosto das pessoas que conversam sem te tocar, gosto de pegar com a colher o sorvete meio derretido que escorre para o fundo do pote sem ninguém me observar, gosto de deitar no chão da cozinha para me refrescar e de grudar a língua na parte interna do congelador.
Nós que somos cariocas aprendemos desde pequenos a independência que o calor traz, aprendemos a montar piscinas improvisadas que só comportam uma pessoa, aprendemos a encontrar sozinhos o caminho de volta do mar até a barraca dos nossos pais, aprendemos a mentir e trair amizades para tomar banhos longos e desejados, aprendemos boas técnicas para abrir garrafas de cerveja, aprendemos a levar na bolsa uma muda de roupas para emergências e, principalmente, aprendemos a usar os melhores cubos de gelo no nosso próprio copo.
No rio de janeiro não tem chocolate quente e não tem hora do chá, não tem dormir abraçado e não tem lareira ou coberta de lã, a gente dorme sem meia e arde a pele quando encosta em outro pé, não tem festa no telhado e não tem dia de neve para ligar para alguém que queira ficar com você de casaco e enrolado, no rio de janeiro você tem que ficar com alguém por amor mesmo, não para se esquentar.
domingo, 1 de junho de 2014
Mas eu não quis
lembro exatamente daquele dia
em que você me pediu um beijo
e eu dei risada
ri tanto e ri tão alto
que a festa inteira ouviu
e quiseram saber também
o motivo da gargalhada
você me olhou sorrindo
eu achei que não estava errada
e que o beijo era um pedido falso
de uma amizade descomplicada
mas hoje me lembro ainda
que eu poderia ter te beijado
se eu quisesse
em que você me pediu um beijo
e eu dei risada
ri tanto e ri tão alto
que a festa inteira ouviu
e quiseram saber também
o motivo da gargalhada
você me olhou sorrindo
eu achei que não estava errada
e que o beijo era um pedido falso
de uma amizade descomplicada
mas hoje me lembro ainda
que eu poderia ter te beijado
se eu quisesse
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