quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Bala de tamarindo

Na rua em que eu moro tem um homem que vende balas de tamarindo. Ele anda numa cadeira de rodas e os saquinhos de bala ficam espalhados numa bandeja de madeira em seu colo. Nem sempre morei nessa rua, mas em todos os meus (quase) vinte anos lembro de, frequentemente, passar por ele, no mesmo lugar, com os mesmos cabelos brancos, com praticamente a mesma quantidade de saquinhos na bandeja.
No início eu era muito pequena para até mesmo verbalizar um suposto desejo por balas de tamarindo, mas meu pai passava pelo moço da cadeira de rodas e comprava um ou dois saquinhos, sempre trocando algumas palavras simpáticas e dando-lhe umas moedas a mais do que o necessário. Ela estava longe de ser minha bala preferida, sempre deixando a língua meio escura e com um gosto metálico no final, nenhuma criança escolheria essa bala como primeira opção. É o tipo de coisa que você come quando se esgotam todas as alternativas e o desejo por algo doce supera qualquer inibição gustativa.
Entretanto, eu só saia de carro à noite com meu pai pelas balas de tamarindo. Por todo o ritual de passar por aquela rua, de cumprimentar o cara na cadeira, de observar como ele deslizava habilidoso por entre os carros para chegar próximo à janela do carro quando via que era meu pai quem estava dirigindo. Vez ou outra ele até enfiava a cabeça timidamente dentro do carro pra me olhar encolhida no banco de trás, esperando que meu pai jogasse o saquinho no meu colo para que pudéssemos voltar pra casa.
Balas de tamarindo e churraquinhos de gato nos arcos da lapa, essas eram minhas pequenas paixões infantis. Eram as coisas pelas quais eu ficava a semana inteira esperando. Os churrasquinhos, apesar de mais deliciosos, não tinham nenhum vendedor bacana que me chamasse a atenção, o legal era mais o clima da lapa que, naquela época, não tinha nem um pouco da fineza que hoje já consegue se encontrar num canto ou outro do bairro. Eram só travestis e prostitutas andando em meio à fumaça do churrasquinho, esperando o que quer que fosse na esquina enquanto eu descia do carro pra pegar nos palitos quentes e engordurados e lançar olhares curiosos diretamente do glamour do meu guarda-roupa do Walt Disney.
Hoje em dia não como mais churrasquinhos na lapa. Hoje em dia, na verdade, minhas memórias da lapa são um tanto quanto embaçadas (fumaça de churrasquinho, mãe, nada de álcool). Porém, o moço da bala de tamarindo ainda está aqui, na minha rua, todo dia. Me assustei logo que me mudei e voltei a passar por ele, tão esquecido no meu passado, tão exatamente igual ao que eu me lembrava. Juro que acho que ele me reconheceu, e me reconhece toda vez que passo de óculos escuros fingindo que nunca comi uma de suas balas de tamarindo.
Odeio pensar que ele me reconhece e vê o quanto eu mudei da menina do banco de trás do escort vermelho, o quão distante eu estou de tudo o que aquela criança era. Odeio pensar que ele consegue enxergar essas mudanças e que pode, assim, perceber o quão nada ele mudou.
Deve ser tão chato quanto ser uma árvore, ou um poste de luz, ou um poodle de dezessete anos com catarata nos dois olhos, ser o cara da bala de tamarindo. Deve ser chato e assustador ter que ver pessoas crescendo e mudando e vivendo enquanto você se mostra a exceção da regra das mudanças da vida e só fica ali, dia após dia, vendendo balas de tamarindo. Socializando com um ou outro executivo solidário, mas só se preocupando em arrumar os saquinhos na bandeja e lubrificar as rodas da cadeira. Não mudar deve assustar muito mais do que mudar o tempo inteiro.
Estranho que digo isso no meio de uma empatia extrema pelo moço da bala de tamarindo. A cada dia que passo pelas costas de sua cadeira consigo me identificar mais. Nossa, se me perguntassem há uns anos atrás eu jamais diria que um dia me colocaria no mesmo microcosmo que o moço da bala de tamarindo. Bem bittersweet mesmo, linda bala de tamarindo que de bala foi promovida à metáfora.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Quem me dera ser uma formiga

É muito difícil ser gente nesse mundo. Muito mais fácil seria ser abelha, ou lagartixa, formiga, morcego, sei lá. Difícil isso de ser obrigado a ter uma opinião sobre tudo. Insuportável essa coisa de ter emoções e ter que se preocupar com os sentimentos alheios o tempo inteiro. Sentimentos pra que? Sentimentos só atrapalham, só complicam, só fazem as pessoas se sentirem desconfortáveis e deslocadas. Se barata não fosse um bicho tão nojento diria que ela sim é feliz, com sangue frio, sem maiores preocupações além de comer lixo e aterrorizar humanos, mas não, é nojento demais, ninguém pode gostar de ser barata, nem a barata mais linda, rica e inteligente deve ser feliz sendo barata.
Muita gente que me conhece acha que eu não tenho sentimentos, pelo menos não como as pessoas ditas normais. Só porque eu costumo não pensar muito antes de falar as coisas, só porque eu choro pelo controle remoto sem pilha em vez de pelos desabrigados nas enchentes, só porque eu não sei lidar com os sentimentos dos outros expostos na minha frente. Mas isso não é verdade, eu sinto o tempo todo. Tudo. E, na minha cabeça, por mais que não seja verdade, parece que sinto mais que todo mundo. Morro de inveja de quem não sente nada.
Esses dias parei pra olhar uma linha de formigas na parede da minha cozinha. Não é possível que elas andem tão despreocupadas assim quanto parecem na linha delas, sem ter vontade de dar uma marretada naquela formiga lenta da frente, ou sem talvez querer dizer pra formiga de trás que estão apaixonadas. Quer dizer, formiga deve se apaixonar né? Deveria pelo menos, com certeza existem muito mais formigas do que seres humanos, o que torna incrivelmente injusto que, nós, que estamos em minoria, sejamos os únicos obrigados a nos apaixonar, a ter um coração, a ser inexplicavelmente estúpidos perto da pessoa que gostamos mesmo depois de todos os livros cheios de cultura que guardamos cuidadosamente na estante do quarto.
Tirando aquela confusão da história com a cigarra, e sem incluir o smilinguido na história (com formiga cristã a gente não brinca), as formigas só trabalham, são mecânicas, nascem com uma função e se dedicam a cumpri-la, até alguém pegar uma canetinha vermelha e pintar a cabeça delas pra que o pessoal do formigueiro não as reconheça mais, sem valores atrelados. Sem nada atrelado, pra dizer a verdade.
Bom, enfim, não dava pra perguntar pra nenhuma das formigas se alguma delas estava apaixonada no momento, então matei umas duas formigas pra ver o que acontecia. Deixei os cadáveres ali no meio de onde tinha que passar a antes bem organizada linha de formigas e elas ficaram LOUCAS. Sim, formigas loucas na parede da cozinha, não sabiam pra onde iam, paravam pra dar uma checada nas formigas mortas no caminho, andavam em círculos pela parede, passavam recados que eu não conseguia entender umas pras outras e, quando eu finalmente achei que elas iam se virar pra me explicar o que estava acontecendo, ou pra tirar satisfações pela minha crueldade gratuita, tudo ficou normal. Elas fizeram outra linha. Deixaram as amigas mortas ali do outro lado da parede e continuaram seguindo seu caminho. Vez ou outra uma formiga desavisada esbarrava nos destroços, saqueava a coitada que estava esmagada, roubava seus cartões de crédito, imagino eu, e voltava pra linha. Pois é, imagina se aquelas formigas que eu matei estivessem levando o leite das crianças, ou indo entregar a carta de amor pra formiga dos seus sonhos naquele exato momento. Imagina se estivessem. POIS NÃO ESTAVAM. Formiga não fica de luto, não escreve poesia parnasiana, não compra anel de noivado, não se importa se a amiga formiga da região serrana pegou leptospirose com as chuvas de verão no rio de janeiro. Formigas são espertas, comem seu coração cru se você deixar um pouquinho de açúcar de confeiteiro em cima. Não têm essa babaquice de PENSAR. Pensar só traz problemas.
O que é muito estranho, pois formigas, apesar de não pensarem, EXISTEM. Sim, todos sabem que formigas existem, menos elas mesmas. Eu acho. Meio que deve ser isso que o amigo Descartes quis dizer quando disse que ele "Pensa, logo existe". Que ele SABE que ele existe. Daí ok, não vou entrar nessa discussão porque eu não tenho nenhuma graduação em filosofia e não acho que ninguém esteja interessado nas minhas teorias existenciais.
Só acho que a gente paga um preço alto demais por pensar, por ser humano, por saber que existe. Morro de inveja das formigas. Pensar é insuportável. Sentir me cansa demais.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Ano novo, mesma merda de sempre

Nos últimos anos eu fiz tudo direitinho. Roupa branca. Calcinha nova (nem sempre dava pra ser vermelha em função da logística dos vestidos brancos). Lista de metas e pendurada na porta da geladeira. Sementinhas de romã na carteira. Tudo certinho. E, ainda assim, nada. Nadinha. Nem um tantinho de sorte que a Angelina Jolie não estava mais usando, nem um pouquinho da fama e fortuna que ficou pros filhos do Michael Jackson. Na-da.
Minha lista de metas na geladeira era tão útil quanto a de supermercado que ficava ao seu lado, sempre com as mesmas coisas pra comprar. Sempre ia ao supermercado precisando comprar tomates e queijo minas e voltava com 4 barras de chocolate. A mesma coisa com minhas metas, ficavam ali paradas, me lembravam de sair de casa com aquele tal objetivo e eu só voltava pra casa pra me pegar rabiscando carinhas tristes ao lado da lista pra mais um dia perdido, mais um dia sem metas, sem tomates, sem queijo minas.
Esse ano, entretanto, tinha decidido fazer as coisas diferentes (claro que comprei roupas novas, mas mais pela desculpa de poder ir ao shopping e gastar todo o meu dinheiro de uma vez só do que pela tradição). Resolvi não fazer simpatias, quase comprei uma calcinha bege pra virar o ano, mas tava tudo fechado na véspera de ano novo então teve que ser amarela mesmo. Resolvi que não ia fazer uma lista. Nunca fui uma pessoa organizada, porque diabos algum dia eu pensei que uma lista de qualquer tipo daria certo pra mim? Fazer uma lista, pra mim, é quase como anotar num papel as coisas que eu, com certeza, não vou fazer. Meu cérebro entende tudo como psicologia reversa, vai ser uma maravilha pra traumatizar filhos (hipoteticamente falando, claro).
Enfim. Metas. As minhas eram até bem nobres para esse ano. Resolvi que ia ser uma pessoa mais paciente, mais compreensiva, mais madura, ia me irritar menos com as coisas e pessoas, resumindo, ia tentar ser uma pessoa melhor. Esse era meio que o objetivo até mais ou menos uns 5 minutos depois que o ano virou. Mas sabe o que? Ninguém nunca ganhou nada sendo bonzinho. Vejam Jesus Cristo, parecia um cara super gente boa, transformava água em vinho, fazia altas ceias pros amigos na sua casa, dava a cara a tapa, e o que ele ganhou? Nada. O pessoal foi lá sem dó, pregou o homem numa cruz e deixou ele horas e horas pagando peitinho até ele se emputecer com aquela porra toda e resolver ressucitar logo pra acabar com a palhaçada. E Gandhi, Madre Teresa, Marthin Luther King, Clark Kent, todos esses, gente muito bacana, mas pessoal só deu valor pra eles mesmo depois de mortos, ninguém colheu frutos ai das suas bondades na terra, quer dizer, tirando Clark Kent que está eternizado ai nos filmes e pega várias mulheres, se bem que tem todo aquele lance de pessoal tentando matar ele com kriptonita né, viu só?
A diferença entre mim e o super-homem é só que eu nem vou me dar mais ao trabalho de tentar. Em 2011 eu não vou tentar ser nada além de: escrota. É isso mesmo. De todas as metas estúpidas que eu já tentei atingir na vida essa é a única que eu tenho certeza que vou conseguir cumprir e, por mais difícil que seja, prometo que vou colocar toda minha alma e esforço para conseguir alcançá-la.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Sugarfree

Aviso: estamos no meio de uma epidemia. Estão todos namorando. Avisem a segurança nacional, fechem os aeroportos, façam um estoque de doritos em casa e só saiam sob minha segunda ordem.
Nessa época do ano é que pode-se perceber melhor a dimensão que esse delírio conseguiu atingir. Sim, delírio, observem bem as vitrines das lojas e verão que estou certa. Para mim fica ainda mais evidente por um simples motivo: eu sou imune à essa doença. Pois é, pego qualquer gripezinha que vem com as mudanças de temperatura, mas quando se trata da pandemia que se alastrou mais rápido pelos 5 continentes eu, surpreendentemente, não mostro nem um sinal de abatimento.
Minha família ainda não conseguiu se acostumar com minha imunidade exagerada, para eles essa doença é bem válida. É como antigamente que os pais faziam as crianças pegarem catapora quando ainda eram bem pequenas pra não correrem riscos de adquirirem a forma mais grave da doença quando mais velhas, lembram? Eu fui criada numa infância onde era bom pegar catapora, do mesmo jeito que vivo numa juventude em que é bom pegar namoro.
Sim, seria ótimo sair dos holofotes dos almoços de família e não receber olhares de pena de gente mais encalhada que eu, mas, se eu conheço bem meu sistema imunológico, não vejo isso acontecendo num futuro próximo.
Eu só fico chateada pelo meu pai. Não, eu fico chateada por mim também, mas é que ele tinha tanto potencial de ciúmes para gastar comigo e eu não dei nem uma vez esse gostinho pra ele, sabe. Bom, claro que se ele soubesse da minha vida fora do mundo convencional dos relacionamentos ele talvez pudesse usar um pouco desse ciúme contido pra me impedir de sair com uma saia mais curta dia ou outro, mas não é o caso.
Quando eu era pequena ele falava muito sobre como ele só ia deixar eu namorar depois dos 18 anos, como quebraria os dentes de quem chegasse perto da garotinha dele e que não ia aguentar se eu aparecesse com um namorado enrolado no pescoço. Hoje em dia ele me pergunta quase que semanalmente se o amigo com quem vou ao cinema não é meu namorado, se eu pegaria um garoto esquisito que ele vê passando na rua ou porque eu não apresento meu "homem secreto" pra ele.
O que é chato, pois eu queria ter alguém de verdade pra apresentar pra ele só pra ele poder libertar todo o potencial de pai das cavernas que eu não deixei ele usar. É um desperdício de um pai em perfeitas boas condições para aterrorizar namorados (que pelo que vejo nos filmes é uma coisa ótima para agarrar marido). É uma pena, já que minha irmã, que atingiu a puberdade pelo menos 3 anos antes de mim, tem muito potencial para ser daquelas adolescentes que aparece cada dia com um garoto mais estranho em casa e não vai poder aproveitar um pai ciumento porque eu já estraguei ele todo.
Mas o que eu posso fazer né? Talvez essa minha resistência possa me trazer algum benefício no futuro, meu sangue pode conter a cura da AIDS sei lá, quem sabe. Daí pelo menos quando alguém me perguntar sobre minha vida amorosa nas reuniões de família eu posso dizer algo do tipo "eu fui a escolhida pra fracassar no amor em prol do bem de toda a humanidade, sou um jesus cristo dos tempos modernos, saiam por aí e criem uma religião em meu nome, não vão nem precisar mudar as letras A.C e D.C (porque meu nome é carolina né). E, afinal,quem precisa de casamento e filhos quando se tem o futuro da civilização em suas mãos, certo?" ou qualquer coisa assim que vai me colocar num patamar elevado ante meus primos que emendam namoro atrás de namoro e só fazem eu parecer mais patética, comendo minha torta alemã com colherzinha de café, todo dia das mães, todo natal, todo domingo (pois é, I'm a sucker por torta alemã).

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Sobre a chatice e o ato de dormir

Eu costumo reclamar muito sobre o quanto as pessoas me irritam, sobre como eu nunca vou conseguir manter um relacionamento, uma vez que todas as pessoas que eu conheço acabam, uma hora ou outra, me cansando (e não do jeito bom). Antes de imaginar como vai ser meu casamento (que casamento?) eu já quero procurar o telefone de advogados para cuidar do meu divórcio. Eu tenho certeza que pra mim não vai ter essa coisa de feliz para sempre, simplesmente por um único motivo: as pessoas são todas muito chatas. Sim, todas.
Mas peraí, eu sou uma pessoa e eu não sou chata. Todas as minhas piadas são muito engraçadas e qualquer um teria a sorte de morar no meu corpo e passar todas as horas de todos os dias dentro da minha cabeça, certo? Ahn, mais ou menos. Eu realmente não me acho tão chata, afinal são 19 anos de convivência e, apesar de minhas disparidades comigo mesma, consigo me achar agradável durante a maior parte do tempo. Mas sim, eu sou chata. E muito. Assim como todo mundo.
Acho que existe algum mecanismo de defesa no ser humano que impede que ele perceba a própria chatice, de forma que ele possa viver anos e anos sendo aquela pessoa que pergunta se é "pavê ou pacomê" sem se incomodar com isso da mesma forma que se incomodaria se essa frase saísse da boca de outro ser de luz, que se acha engraçadíssimo, assim como ele. Porém, existe uma falha nesse sistema. Sim, se você parar para se escutar, naquele momento logo antes de dormir, vai conseguir perceber o quão insuportavelmente entediante e piegas você consegue ser.
Por exemplo, esses dias ando tendo aquelas insônias de ficar horas rolando na cama sem conseguir mergulhar no estado de espírito elevado que tanto me agrada. Foi quando parei para ouvir pela primeira vez as vozes dentro da minha cabeça se manifestando, que entendi como é difícil achar uma pessoa legal no mundo, principalmente porque eu não sou uma delas.
(flashback para a cena de carolina -eu- tentando dormir)
(... alguns minutos de silêncio ...) "eu gosto de uvas" "faz tempo que não como uvas" "hum... foi um bom restaurante que fui no fim de semana né" "a salada tava muito boa" "preciso comer mais salada" "amanhã vou no supermercado e compro coisas pra fazer salada" "não vou ficar gastando dinheiro quando posso fazer uma coisa tão fácil dessas em casa" "♫ I like big butts and I cannot lie ♪" "não ok, vamos dormir agora, você tem que acordar cedo amanhã" (silêncio) "ai droga acho que deixei dinheiro dentro da minha calça jeans" "se for uma nota de 2 reais eu não me importo, mas se for uma de 20 eu quero pegar agora" "não, deixa, amanhã eu pego, é só eu não me esquecer" "dinheiro na calça, dinheiro na calça, dinheiro na calça, dinheiro na calça" "ah não, agora acho que tenho que fazer xixi" "bom se eu levantar pra fazer xixi melhor pegar logo o dinheiro na calça" "não, eu não posso estar com vontade, acabei de ir no banheiro" "nossa se eu acordar no meio da noite com vontade de fazer xixi vou ficar muito puta" "♪ you other brothers can't deny ♫" (e continua por mais algumas horas).
Não sei se fui clara o bastante. Se quando eu era pequena meus pais cantavam música pra me fazer dormir, hoje em dia eu me encarrego de entediar a mim mesma até não aguentar mais e ser obrigada a dormir. E, se uma pessoa consegue ser tão chata a ponto de fazer a si própria dormir, eu não sei quem eles estão tentando enganar com esse papo de paz mundial. Afinal, guerras só acontecem porque as pessoas não se aguentam mais e querem matar umas às outras, certo?
Aliás, com tantos problemas no mundo eles preferiram erradicar a varíola do que a chatice, né? Esse pessoal do governo não tem a menor noção de prioridades mesmo.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Serendipity (quer dizer, seria, se fosse verdade)

Hoje me flagrei num momento ridículo. Era um momento só meu, eu não precisava ficar com vergonha, afinal ninguém estava vendo, mas às vezes isso acontece. Às vezes me surpreendo fazendo algo tão patético que sinto como se minha alma tivesse se desprendido do meu corpo e ficasse me observando de fora, apenas zombando de tudo que eu penso como se eu estivesse dizendo todas aquelas coisas em voz alta diante de uma grande platéia que confunde minha tragédia grega com um show de stand-up comedy.
Bom, enfim, lá estava eu no ônibus, ouvindo música, toda largada nas poltronas confortáveis (ônibus do condomínio, porque gosto de pagar de emergente da zona sul pela cidade), tentando encaixar a música certa aos cenários que iam passando, quando, ao meu lado, parou um ônibus comum, estava trânsito e era hora do rush, então tinham várias pessoas em pé no ônibus, obviamente. Fiquei olhando, pensando em como aquelas pessoas deviam estar me invejando naquele momento, querendo um pouco do meu ar-condicionado que embaçava as janelas, quando, de repente, cruzei olhares com um cara lindo parado ali de frente pra mim, segurando na barra do alto do ônibus (acho que todo homem - lindo - que segura na barra do alto do ônibus devia figurar num calendário de bombeiro ou coisa do tipo, porque é simplesmente o melhor ângulo para os bíceps e tríceps que existe) que, para surpresa geral, parecia estar me encarando também.
Me ajeitei na poltrona sem graça e fingi estar trocando de músicas no iPod enquanto via o ônibus do lado se movendo com o canto do olho, sem direcionar outro olhar para o lindo homem bombeiro. Nossa, uma troca de olhares? Foi isso que me deixou tão constrangida? Meu deus, grow up! Infelizmente não, não foi por isso. Ai, como eu queria terminar a história aqui e poupar a Carolina flutuante do constrangimento, mas não, depois que o ônibus saiu do meu campo de visão que começou a parte triste da cena.
Não sei se foi porque eu estava com um vídeo que andei vendo recentemente na cabeça, ou talvez seja mesmo porque chega um ponto em que a solteirice se entranha no seu ser de tal forma que começa a danificar neurônios e provocar pequenos blecautes na área do bom-senso durante o dia. Só sei que quando vi estava revirando minha bolsa à procura de uma caneta pra escrever meu telefone na mão e mostrar pro cara lindo do outro ônibus. "Ai meu deus tem que ser tinta preta senão ele não vai enxergar" "Será que não é melhor eu escrever o telefone na janela?" "Tenho um marca-texto, acho que se eu escrever na janela ele vai me achar mais interessante" (pausa pra testar o marca-texto rosa na janela) "Droga, não pega direito, vai ter que ser na mão e de caneta mesmo" "Se bem que na mão é capaz de ele não enxergar, melhor escrever no braço todo" "Ih, mas o ônibus tá cheio, ele não vai ter onde anotar" "Ah, enfim, é bom que ele seja bom em memorizar coisas" "Será que outra pessoa não vai olhar e anotar meu telefone também?" "Ah droga tomara que ele tenha uma caneta pra me mandar o telefone dele também" (desligo a música pra focar no meu objetivo) "Vou só deixar a caneta aqui na parte de fora da bolsa pra ele não achar que eu já estava pensando nisso, né?" "Ok, agora faz cara de quem não está desesperada". E, nesse tempo todo a Carolina flutuante estava ali me olhando, observando meu diálogo interno como quem assiste às videocassetadas (uma coisa de achar graça ao mesmo tempo que se sente mal por estar assistindo faustão ao invés de estar por aí vivendo ou fazendo sei lá o que que as pessoas costumam fazer domingo à tarde).
E sabem o que aconteceu? Nada. Eu não estava procurando a caneta porque alguém deu a entender que queria meu telefone nem nada, eu estava procurando a caneta porque, na minha cabeça, aquela era a sequência lógica de acontecimentos. Aquela paranóia de sempre de que meu tão estimado conto de fadas do transporte coletivo está prestes a se tornar realidade. Mas é sempre tudo na minha cabeça. O outro ônibus nunca mais passou do lado do meu, minha caneta está até agora na parte da frente da minha bolsa e aquele cara do calendário de bombeiro provavelmente não era o meu Mr Right, ou até era, Mr Right on the wrong bus.
O pior não é nem ter que conviver com a vergonha alheia de mim mesma, já estou acostumada com esse meu subconsciente petulante opinando sobre tudo o tempo inteiro, o problema mesmo é que esse não é um episódio isolado. Eu vivo por aí esperando um desses encontros repentinos com o homem perfeito, caçando pequenos momentos que eu possa descrever depois como memoráveis, sonhando que vagões de metrô, bancos de ônibus e filas de banco estão repletas de potenciais Mr Right só esperando o olhar certo para fazer um movimento que vai mudar nossas vidas para sempre. Esperando a hora de apertar o REC cerebral pra não deixar de contar nem um detalhe quando meus filhos perguntarem como conheci o pai deles (mesmo que ele venha a seguir o curso natural de todas os meus relacionamentos e se torne um babaca depois).
Acho que já não consigo mais enxergar a linha tênue que separa uma pessoa sonhadora e idealista de uma pessoa fracassada e patética sem a menor noção da realidade, né?.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Quem nasce pra ser medalha de honra ao mérito jamais será estatueta do oscar

Péssimas idéias brotam na minha cabeça num fluxo incrível. Meu analista fala que eu não devo ficar me prendendo à coisas do passado pra justificar as besteiras que eu faço no presente, mas eu não consigo deixar de achar que tudo isso começou quando eu era pequena e resolvi que não ficava bonita de franja e resolvi pegar a tesoura e cortar ela bem na raiz pra fazer ela sumir. Foi toda uma temporada passando gel pro cabelo parar de ficar em pé na frente e vendo as pessoas se assustarem ao descobrir o real tamanho da minha testa. Não aprendi nada com a experiência e assim que a franja voltou a um comprimento aceitável fui lá e cortei de novo, apenas pra minha mãe ter certeza de que havia errado na minha criação.
Pois é, depois disso foi uma sucessão de infortúnios acontecendo na minha vida. Azar? Planetas desalinhados? Número de cromossomos errado? Não, apenas péssimas decisões da minha parte.
O problema é que a maioria dessas idéias horríveis chegam na minha cabeça como se fossem algo digno de um prêmio Nobel. Me sinto Isaac Newton embaixo da árvore levando uma maçã na cabeça a cada pensamento repentino. Só que no meu caso eu só fico com o galo na cabeça, nada de descobrir a gravidade.
A mais recente foi: passar auto-bronzeador. Claro, é verão, todo mundo anda pelas ruas ostentando um bronzeado saudável e ornando pele descascada e eu não posso ir à praia por causa do meu pé quebrado (não que eu seja uma pessoa que frequenta praia, mas é que na atual conjuntura eu estou adotando o pensamento do "nem se eu quisesse") então a coisa lógica se fazer é: ficar bronzeada também, certo? Errado.
Quer dizer, estaria certo se: 1. o auto-bronzeador, de fato, deixasse a pele do ser humano bronzeada marrom em vez de bronzeada laranja e 2. eu soubesse aplicar hidratantes uniformemente.
Não sei se preciso descrever o reflexo do espelho com o qual estou sendo obrigada a conviver, mas se eu fosse obrigada diria que é algo como um simpson que deu errado. Ah, agora não só tenho que ouvir o quanto estou branca doente como também tenho que morrer de calor nesse rio de janeiro usando calças compridas para esconder minhas pernas saídas diretamente de springfield.
Sinto dizer, mas acho que estou cada vez mais longe do meu Nobel.