quero espetar essa veia
azul e cheia
que você carrega
no braço e
tirar seu sangue
até ter espaço
em você
para mim
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
Fim do mundo
Você sabe que o sol vai morrer, em quatro ou cinco bilhões de anos o sol vai apagar, um gigante entediado vai apertar o interruptor do universo e desligar a nossa luz para que possamos dormir, vai levantar o planeta inteiro entre o indicador e o polegar e embalar o nosso sono na palma da mão, vai desejar boa noite, dar um beijo e caminhar por cima das estrelas até nenhuma mais conseguir brilhar.
Toda quarta-feira é dia do mundo acabar, todo mês tem um eclipse raro que só pode ser visto a cada setenta anos, todo ano o inverno fica um pouquinho mais quente - é o sol chegando mais perto para se despedir. E, talvez, o mundo acabe em um sábado e não em uma quarta-feira, eu sei, que injusto a gente ter que trabalhar a semana inteira sem qualquer apocalipse para descansar os pés - e logo no sábado, sábado a gente tinha combinado de tomar aquela cerveja. Fazer o quê?, imprevistos acontecem. Mas não dá pra remarcar? Remarcar o fim do mundo?, não, não dá, vai ter que ser no sábado mesmo. E a nossa cerveja? Pode ser na quarta-feira, o mundo ainda vai estar lá, a gente senta na esquina do seu prédio e olha as estrelas que não foram ainda esmagadas. Quarta-feira eu não posso, enquanto o mundo estiver por aqui, eu acordo cedo no dia seguinte.
Não vou conseguir dormir ou trabalhar essa semana esperando o sol ser levado embora, vou subir no telhado e estender um cobertor para ficar bem de olho nos movimentos da galáxia, não quero perder a melhor parte e ter que assistir a reprise na televisão, quero ser expelida para uma nova dimensão da primeira fileira, com ou sem emoção?, sempre com emoção e, caso mude de ideia ou não tenha outros planos, vou guardar um lugar pra você ver o fim do mundo aqui do meu lado.
Toda quarta-feira é dia do mundo acabar, todo mês tem um eclipse raro que só pode ser visto a cada setenta anos, todo ano o inverno fica um pouquinho mais quente - é o sol chegando mais perto para se despedir. E, talvez, o mundo acabe em um sábado e não em uma quarta-feira, eu sei, que injusto a gente ter que trabalhar a semana inteira sem qualquer apocalipse para descansar os pés - e logo no sábado, sábado a gente tinha combinado de tomar aquela cerveja. Fazer o quê?, imprevistos acontecem. Mas não dá pra remarcar? Remarcar o fim do mundo?, não, não dá, vai ter que ser no sábado mesmo. E a nossa cerveja? Pode ser na quarta-feira, o mundo ainda vai estar lá, a gente senta na esquina do seu prédio e olha as estrelas que não foram ainda esmagadas. Quarta-feira eu não posso, enquanto o mundo estiver por aqui, eu acordo cedo no dia seguinte.
Não vou conseguir dormir ou trabalhar essa semana esperando o sol ser levado embora, vou subir no telhado e estender um cobertor para ficar bem de olho nos movimentos da galáxia, não quero perder a melhor parte e ter que assistir a reprise na televisão, quero ser expelida para uma nova dimensão da primeira fileira, com ou sem emoção?, sempre com emoção e, caso mude de ideia ou não tenha outros planos, vou guardar um lugar pra você ver o fim do mundo aqui do meu lado.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
12 de junho
Naquele dia pensamos em pular do vigésimo segundo andar, fugir da pequena reunião de pessoas aglomeradas no apartamento e sentar na beira da piscina de mãos dadas com os pés encostando na água. As luzes lá embaixo nos convidavam a escapar do murmúrio constante de assuntos irrelevantes e passar a noite planejando o próximo fim de semana, o próximo ano, a próxima vida, todas as vidas que passaríamos juntos contando um para o outro histórias ruins sobre nossos dias medíocres, histórias desnecessárias e fascinantes, naquele momento eu poderia ouvir, até pelo tempo que fosse uma eternidade, todas as futilidades que você quisesse me contar, poderia inventar personagens e castelos e gnomos e fadas para o assunto nunca acabar.
Naquele instante eu poderia ter pulado, naquele exato momento em que você tirou meu brinco e colocou na sua orelha, naquele segundo arrastado em que eu segurei sua mão e mentalmente te fiz prometer que pularia comigo vinte e dois andares abaixo onde aquela noite não acabaria, te fiz prometer que não me soltaria durante a queda e nem durante o tédio que eventualmente poderia instalar-se entre nós; te pedi tanta coisa em silêncio e, contudo, continuamos ali, paralisados, ora nos olhando nos olhos, ora encarando o chão distante, não nos prometemos nada, não esgotamos todos os assuntos possíveis, perdemos a oportunidade de cair em uma dimensão exclusivamente nossa, perdemos a chance de sermos nós.
Hoje talvez você mal se lembre daquele momento em que poderíamos ter pulado, mas, dentro de mim, estou desde então te esperando lá embaixo.
Naquele instante eu poderia ter pulado, naquele exato momento em que você tirou meu brinco e colocou na sua orelha, naquele segundo arrastado em que eu segurei sua mão e mentalmente te fiz prometer que pularia comigo vinte e dois andares abaixo onde aquela noite não acabaria, te fiz prometer que não me soltaria durante a queda e nem durante o tédio que eventualmente poderia instalar-se entre nós; te pedi tanta coisa em silêncio e, contudo, continuamos ali, paralisados, ora nos olhando nos olhos, ora encarando o chão distante, não nos prometemos nada, não esgotamos todos os assuntos possíveis, perdemos a oportunidade de cair em uma dimensão exclusivamente nossa, perdemos a chance de sermos nós.
Hoje talvez você mal se lembre daquele momento em que poderíamos ter pulado, mas, dentro de mim, estou desde então te esperando lá embaixo.
segunda-feira, 25 de maio de 2015
Corante amarelo
n° 3
você abre os pacotes
vermelhos, brilhantes
eu coloco na boca e
já sinto minha pele
começar a coçar
você não leva a sério
meu edema de glote e
me enfia no estômago
duzentos e cinquenta gramas
de salgadinho
com uma das mãos
seguro uma ampola
de adrenalina
digo que é para o caso
de eu, por acaso,
perder todo o ar
n°5
você lambe os farelos
dedo por dedo
sem qualquer pressa de me salvar
mas não quero que pare de me oferecer
salgadinhos de milho
e beijos crocantes,
pode até me beijar enquanto liga pra ambulância
você abre os pacotes
vermelhos, brilhantes
eu coloco na boca e
já sinto minha pele
começar a coçar
você não leva a sério
meu edema de glote e
me enfia no estômago
duzentos e cinquenta gramas
de salgadinho
com uma das mãos
seguro uma ampola
de adrenalina
digo que é para o caso
de eu, por acaso,
perder todo o ar
n°5
você lambe os farelos
dedo por dedo
sem qualquer pressa de me salvar
mas não quero que pare de me oferecer
salgadinhos de milho
e beijos crocantes,
pode até me beijar enquanto liga pra ambulância
terça-feira, 12 de maio de 2015
Impressionismo
Olhando daqui de longe, o Cristo Redentor parece apenas uma antena de rádio, tão cinza e pequeno e perdido no meio da montanha.
Não uso óculos para corrigir minha miopia, gosto da cidade borrada e fora de foco, gosto dos rostos irreconhecíveis me sorrindo à distância e de ir descobrindo cada traço conforme vou me aproximando. O dia, para mim, é uma mistura de cores e de formas, nada nunca está alinhado com nada, as pessoas são de aquarela e a paisagem está sempre em contínua transformação, da vanguarda pós-moderna ao conservadorismo cristão.
Às seis horas da tarde, quando são ligados os postes da rua, as luzes perdem os seus limites e vejo apenas imensas bolotas laranjas flutuando sobre os borrões apressados que passam de um lado para o outro. Não me importo em conhecer nada em detalhes, não me interesso por simetria ou organização, o caos me é absolutamente encantador.
Você, entretanto, destoa de todo o resto, estragando minha vida em Monet com sua perfeita nitidez, fecho os olhos e te resgato diariamente do meu pequeno museu impressionista ao qual você obviamente não pertence; mas, por sorte ou ironia do destino, lá é onde você reside.
Não uso óculos para corrigir minha miopia, gosto da cidade borrada e fora de foco, gosto dos rostos irreconhecíveis me sorrindo à distância e de ir descobrindo cada traço conforme vou me aproximando. O dia, para mim, é uma mistura de cores e de formas, nada nunca está alinhado com nada, as pessoas são de aquarela e a paisagem está sempre em contínua transformação, da vanguarda pós-moderna ao conservadorismo cristão.
Às seis horas da tarde, quando são ligados os postes da rua, as luzes perdem os seus limites e vejo apenas imensas bolotas laranjas flutuando sobre os borrões apressados que passam de um lado para o outro. Não me importo em conhecer nada em detalhes, não me interesso por simetria ou organização, o caos me é absolutamente encantador.
Você, entretanto, destoa de todo o resto, estragando minha vida em Monet com sua perfeita nitidez, fecho os olhos e te resgato diariamente do meu pequeno museu impressionista ao qual você obviamente não pertence; mas, por sorte ou ironia do destino, lá é onde você reside.
terça-feira, 21 de abril de 2015
O primeiro amor
Todo mundo merecia ser o primeiro amor de alguém.
Todo mundo deveria ser capaz de despertar, ao menos uma vez, um amor tão intenso e desesperado que, por sessenta ou cento e vinte anos, te fizesse ser lembrado como o melhor beijo, o melhor cheiro, o melhor passeio de mãos dadas. Todo mundo deveria poder conseguir sentir o coração de alguém bater forte pela primeira vez, como se esse alguém o tivesse arrancado do peito e colocado em suas mãos, te deixando responsável por realizar, a cada minuto, as noventa e cinco contrações necessárias para manter a vida naquele corpo. É inebriante a sensação de bombear o sangue de outra pessoa.
Você merecia ser o meu primeiro amor, merecia bombear o meu sangue e destruir uma a uma as minhas pequenas ilusões. Você merecia tomar posse dos meus pensamentos e clamar crédito pela minha existência, merecia cada dilatação de pupila e respiração profunda que eu fosse capaz de realizar. Você merecia olhares apaixonados durante o jantar e telefonemas embriagados na madrugada, merecia alguém que conseguisse enxergar a sombra de um coelho na lua simplesmente por estar na sua companhia, merecia uma primeira tentativa de escrever poesia.
Eu olho através do seu discurso inocente e consigo enxergar com clareza que você, mais do que ninguém, é o tipo de pessoa que merecia ser o primeiro amor de alguém. Mas eu já tive um primeiro amor e já fui o primeiro amor de alguém, troquei sangue, suor e saliva de formas irreversíveis; meu coração há muito contrai-se involuntariamente e meus reflexos não são nada menos do que automáticos, nada depende de você, já fui dessensibilizada para a realidade e não sei se existe uma forma de amar novamente pela primeira vez.
Desejo que você seja o primeiro amor de alguém, mesmo que nunca venha a ser o meu.
Todo mundo deveria ser capaz de despertar, ao menos uma vez, um amor tão intenso e desesperado que, por sessenta ou cento e vinte anos, te fizesse ser lembrado como o melhor beijo, o melhor cheiro, o melhor passeio de mãos dadas. Todo mundo deveria poder conseguir sentir o coração de alguém bater forte pela primeira vez, como se esse alguém o tivesse arrancado do peito e colocado em suas mãos, te deixando responsável por realizar, a cada minuto, as noventa e cinco contrações necessárias para manter a vida naquele corpo. É inebriante a sensação de bombear o sangue de outra pessoa.
Você merecia ser o meu primeiro amor, merecia bombear o meu sangue e destruir uma a uma as minhas pequenas ilusões. Você merecia tomar posse dos meus pensamentos e clamar crédito pela minha existência, merecia cada dilatação de pupila e respiração profunda que eu fosse capaz de realizar. Você merecia olhares apaixonados durante o jantar e telefonemas embriagados na madrugada, merecia alguém que conseguisse enxergar a sombra de um coelho na lua simplesmente por estar na sua companhia, merecia uma primeira tentativa de escrever poesia.
Eu olho através do seu discurso inocente e consigo enxergar com clareza que você, mais do que ninguém, é o tipo de pessoa que merecia ser o primeiro amor de alguém. Mas eu já tive um primeiro amor e já fui o primeiro amor de alguém, troquei sangue, suor e saliva de formas irreversíveis; meu coração há muito contrai-se involuntariamente e meus reflexos não são nada menos do que automáticos, nada depende de você, já fui dessensibilizada para a realidade e não sei se existe uma forma de amar novamente pela primeira vez.
Desejo que você seja o primeiro amor de alguém, mesmo que nunca venha a ser o meu.
sexta-feira, 13 de março de 2015
Primeiro dia de vida
A vida é impulsiva e dá voltas por conta própria, sem qualquer propósito ou direção, ela dá voltas e mais voltas dentro de si mesma e, de tanto te fazer virar, acaba sempre te trazendo de volta para o mesmo lugar. A vida é repulsiva e te transforma em parasita, ela somente te permite viver na condição de um ser dependente, frágil e incapaz em uma constante e interminável espera por panos quentes e abraços de proteção.
A vida pulsa por entre os dedos e se enrosca no pescoço, ela corre de um lado para o outro equilibrando-se em um cordão, a vida te enforca enquanto te alimenta, te oferece oxigênio e depois te sufoca, a vida é suja e barulhenta, fria e desorganizada, a vida te rasga por dentro e o respirar te queima os pulmões, a vida te passa de mão em mão e te suga, te seca, te examina, te dá um nome e te confina. Viver é um problema, melhor não sair da barriga.
A vida pulsa por entre os dedos e se enrosca no pescoço, ela corre de um lado para o outro equilibrando-se em um cordão, a vida te enforca enquanto te alimenta, te oferece oxigênio e depois te sufoca, a vida é suja e barulhenta, fria e desorganizada, a vida te rasga por dentro e o respirar te queima os pulmões, a vida te passa de mão em mão e te suga, te seca, te examina, te dá um nome e te confina. Viver é um problema, melhor não sair da barriga.
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