quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Re:

Refaço meus passos para tentar reencontrar o que perdi; volto à padaria, ao mercado, ao shopping e ao salão, recupero moedas e elásticos, mas se confundem com o asfalto os pedaços do meu coração. A musculatura é cinza, falta à ela o oxigênio que respiraram por mim, só o que posso fazer é colocar algodão para preencher os espaços vazios (cheios de necrose). Sei que o esperado era que eu me desfizesse em areia ou que de mim vazasse um líquido qualquer, jamais algodão, algodão é difícil de empurrar de volta para o lugar, principalmente quando não há pele o suficiente para me fechar.
Reescrevo diálogos, em prosa, reafirmando a necessidade de um ponto final, uso os recursos do mercado negro para tentar trocar todos os meus órgãos pelo seu coração, não adianta, a fila para o transplante é maior do que o tempo que me resta e o fim já nos espera sentado - foi preservado com cuidado em tanque de formol.
Relembro dos erros e espero ansiosamente pela sua revolta, pois, para o último ônibus, só vendiam passagem sem data de volta.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

No escuro e vendo

Fecho os olhos pra não ter mais que te escutar, seus sussurros são opacos demais, suas palavras perdem a transparência no momento em que começa a colori-las. A cor faz ficar mais feio o seu papel, não é algo comum. Assim tão próximo, seu corpo transforma-se em borboleta, colorido e repugnante, não é a cor que vai te tirar da posição de inseto, nenhum fingimento pode fazer desaparecer as escamas que carrega nas asas. Suas palavras, entretanto, são mariposas, grotescas ao olhar de perto, porém leves, tranquilas de ouvir de longe; não tentam fingir uma beleza que não têm - suas palavras, as mariposas. Me agrada a sua polinização sincera e desengonçada, monocromaticamente correta em uma natureza fútil e espalhafatosa.
Fecho os olhos e você desaparece, junto com a paisagem, junto com tudo o que eu já quis que você fosse: estátua, espada, esfera, anzol; talvez eu valorize demais as palavras em detrimento das imagens, porém, devo confessar, não sei colorir seus parágrafos dentro das linhas e acho também que ninguém te ensinou a falar colorido sem se borrar.
A solução é ouvir em preto e branco.
O caminho mais curto é me cegar pra tua voz, mas não se perca em um conceito de desafio, há muitos anos coleciono rouquidão, isso é tão ridiculamente fácil, é preciso apenas juntar todo o tempo em que se fecha os olhos pra piscar para ficar a maior parte do dia sem enxergar.

domingo, 21 de agosto de 2011

Exame físico

O abdome é dividido em nove quadrantes, os médicos delimitam previamente as linhas do esquartejamento, sobra aos assassinos pouco ou nenhum trabalho. Quero que você vá descendo a lâmina afiada da sua faca na linha imaginária marcada pelos mamilos, aproveite e roube, através deles, minhas melhores endorfinas batidas no leite. Quero que vá rasgando a pele aos poucos, isso, sem medo, sem deixar a mão tremer enquanto me corta, sem limpar o sangue que escorre, meu último desejo é sujar os seus sapatos.
Pela dor que eu sinto você já fez duas linhas verticais, dividiu meu corpo em três, mas as doenças são muitas, são necessários espaços menores para examinar alguém com precisão, não se preocupe, estou aqui para te ensinar, vou mostrar exatamente o que você tem que fazer. Seguro sua mão para te ajudar a abrir os dois últimos talhos horizontais, o primeiro bem na crista da bacia e o outro começando logo abaixo das costelas, imagino que você esteja pensando em como elas ficariam uma delícia defumadas e regadas ao molho de churrasco, queria que tivesse me avisado da sua antropofagia antes que eu te permitisse tomar conta da minha autópsia.
Pronto, estão aí expostos os nove pedaços de mim que você desconstruiu, quero que me diga qual deles apresenta o maior grau de macicez, só não repare essa discreta distensão ali no meio, bem aonde você apoiou a mão trêmula, cansada de tanto me dilacerar, é o resultado de todo o ar que engoli junto com as palavras que tanto ensaiei, mas que fiz questão de não te entregar.

domingo, 14 de agosto de 2011

Veja bem, meu bem

Tem aquela hora do dia (ou aquele fim de semana, ou aquele início de mês) em que você não consegue olhar ninguém no olho, mas tem que olhar. É chato como a gente tem sempre que olhar os outros no olho. Nos olhos, nos dois olhos, que saco. Um dos seus olhos mirando a cara inteira de outra pessoa, de várias pessoas, de todas as pessoas, chega de pessoas! Acaba o estrabismo distorcendo a conversa, tirando o foco do assunto - que começou só pra passar o tempo - mas ninguém se importa muito desde que você não solte a corda invisível que se estende daqui até ali, entre o espaço do meu e do seu nariz, a interação social não passa de um grande cabo-de-guerra de córneas sem atletas no banco de reservas, suas pupilas têm de ficar dilatadas até o final.
Mas então tem aquela hora que eu falei, aquela hora do dia em que você não quer olhar ninguém. Nessa hora me surpreendo encarando colegas e amores através do espelho, deixo os reflexos conversarem por nós, o olho do meu reflexo olhando no olho do reflexo de qualquer-um, são projeções de luz que se compreendem sem esforço, posso ficar de costas para você e, ainda assim, te olhar, parece bonito, parece poesia, mas é só cansaço mesmo, não tem beleza nenhuma em deixar um reflexo conversar no seu lugar, no meu lugar, parece que estou sozinha no desprezo de fixar o olhar.
Detesto me colocar como única nas situações que descrevo, mas é espelho, né? Não tem jeito, querendo você ou não, eu vou estar ali. Coloco minhas lentes para corrigir a miopia, o astigmatismo e o narcisismo, mas de nada adianta. A cada olhada que dou em você demoro três outras em mim, ajeito o cabelo, arranco um coágulo de sangue em cima da sobrancelha, sangue fora de validade parece carvão, é tudo meu, mas você não percebe que só olho pra mim mesma pois quero entender como você me olha, quero saber o que pareço pra você. Mas você também parece que só se olha, que penteado mais ridículo, é o que quero dizer, mas não digo, percebo que não quer que eu me vire pra olhar meu olho de verdade ao invés do meu olho-imagem, que bom, é bom mesmo, estou de fato cansada de olhar no olho, já disse que estou naquele pedaço do mês em que não consigo me segurar em olhos, me canso mesmo, me canso fácil desse jeito, não digo isso só porque te percebo desviando o olhar, me canso de verdade, fico feliz que a gente se entenda assim, conversa com meu reflexo, não faço questão de contato visual, que inútil essa coisa de olhar, é meio óbvio que se não posso olhar no seu olho não quero olhar no olho de mais ninguém.

domingo, 31 de julho de 2011

Sodoma e Gomorra

Ofereço um pedaço do meu corpo antes de partir, nao quero dar a impressão de ser mal educada, estão todos congelados - os alpinistas - mas a sua carne eu ainda me recuso a comer. Da festa sobram pernas e braços e brigadeiros e bagaços que não me incomodo em reciclar, junto latas de alumínio apenas para ouvir seu tilintar, balanço os sacos de lixo para declamar o choque metálico, como poesia, versos feitos de barulho e de metal, o faço também para que não pensem que carrego cadáveres, ouço gritos de criança ou sirenes de ambulância, não sei mais diferenciar.
Mordi a língua tão forte que até agora não parou de doer, vai nascer uma afta, tenho certeza, melhor aproveitar para comer tudo o que tiver de salgado enquanto espero a erosão acontecer, é como faz minha avó, procura sentar nos lugares mais desconfortáveis que consegue encontrar até surgirem as hemorróidas que estouram no fim de cada mês, é melhor sentir falta de algo sabendo que muito dele já fez, sabe lá quando você vai sentir vontade de andar de carrosel ou descansar a bunda sobre canos de cobre, não vale a pena prevenir a hipertensão e viver uns anos a mais sem poder jantar na rua, sem correr em casa, nua, sem o prazer do pecado da gula.
Com a boca rachada, parece que jamais vou sentir qualquer gosto novamente, a inflamação não me permite enxergar a transitoriedade da doença e o tempo que ela demora a desaparecer acaba tornando a dor uma coisa normal. De vez em quando, é verdade, penso em olhar para trás e me deixar transformar em estátua de sal.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Só a bailarina que não tem

Todos os loucos passam me olhando atravessado, não sei se é por identificação ou se, por algum motivo, eu os deixo assustados, tão pretensiosos esses homens que passam solitários, prefiro reparar nos que estão acompanhados. Com lápis e papel sustento os olhares de quem caminha no calçadão, às vezes aparentam ter mais medo do que eu de serem observados. Mas essas roupas de ginástica também não favorecem o corpo de muita gente. Definitivamente não favorecem a senhora, com essa calça lilás e blusa listrada.
Mando mensagens telepáticas para que essas pessoas levantem e saiam do meu lado, não acredito que querem puxar assunto, será que desaprendi a fazer cara de louca? Ouço a música bem alta para tentar incomodar os outros e quase estouro meus tímpanos, no jornal apareceria como a lastimável explosão de mais um bueiro, apenas os incovenientes ao meu lado teriam visto gás e fogo escapando do meu ouvido interno.
São oito horas da manhã e os turistas já estão enfileirados para tirar fotos com o horizonte de smog e o copacabana palace coladinho no rosto, talvez eu deva ir até lá avisá-los de que é apenas um hotel (no caso, um hotel no qual a maior parte deles jamais poderia se hospedar, mas ainda assim, é só um enorme bolo de concreto enfeitado).
Fujo de casa, sento na praia, passo quantas horas for preciso imaginando a vida de estranhos suados, transformo jovens atletas e aposentados em minotauros, quero apenas desviar da vontade de rastejar em busca de um sentimento que procuro desesperadamente despertar em alguém. Sair de casa somente não tem me adiantado mais, porém não sei aonde encontrar a pessoa que vai abrir para mim as portas de si mesma e permitir que em seu coração eu vá me refugiar, na minha agenda telefônica que, certamente, não está, tantas as vezes que já redisquei cada um dos números gravados para confirmar que eu realmente não sou aquela pela qual alguma delas gostaria de se apaixonar.
Eu costumava pensar que era alguém montado em casco de tartaruga que me levaria para casar, estivera matando dragões com faquinhas de patê, por isso a demora, agora apenas tomo o cuidado de sentar com as pernas levantadas para que os cachorros que andam sem coleira não me tomem como parte dos bancos de cimento e resolvam levantar as patas para, em mim, urinar.
Na minha caixa de música estão todas as catástrofes que, por descuido, Pandora deixou escapar, não percebem a melodia desafinada e dançam, a noite inteira, acompanhando os movimentos da bailarina de perna quebrada, ninguém se lembra de me trazer a cola para tentar consertá-la.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Como no cinema

O velho sem uma perna andando de muletas no fundo da sua foto, para sempre ficará sem perna, com um clique você imortalizou a sempernice do velho em código binário e, pior, colocou-o em exposição no papel de parede do seu computador, junto com suas próprias deficiências. Você nem saiu tão bem assim na foto, liberte esse pobre velho incompleto, quem sabe ele só precisa de um pouco da sua energia para competir nas paraolimpíadas.
Vendo fotos você nunca vai imaginar que aquelas pessoas já estiveram peladas na cama de uma outra - na minha cama - espalhando pelo chão de um quarto - do meu quarto - essas mesmas roupas que as deixam tão comportadas no retrato. São esses flashes puritanos que paralizam a inquieta inocência no lugar e colocam-na de volta aonde a sociedade exige que ela deva estar, nos sorrisos de cheese e abacaxi, em todos os seus dentes, tão inocentes para todos que os vêem nos álbuns, menos para mim, que há pouco ainda os sentia furiosos, arrancando enormes pedaços de carne dos meus quadris.
Você nem pode imaginar quantas foram as vezes, por essas fotos ingênuas e pintadas de xadrez, tantas perturbadas vezes, em que não aguentei ficar parada esperando suas respostas e, através de lentes, te comi, não preciso mais de garfo e faca, te como com as mãos, como em um romance.