segunda-feira, 4 de abril de 2011

Sem saber

Eu disse que não sabia o que fazer. Sentei na escada de costas para o vento, deixando a franja cobrir meus olhos. Eu realmente não sabia o que fazer. Eu queria falar, ms não tinha mais o que dizer - ou tinha medo.
Olhei para o chão, cheio de terra, cheio de marcas de pés. Fiquei olhando. Olhei até que nada mais consegui ver. Tentei levantar mas tinha esquecido como, então continuei do jeito que estava, com os cabelos na cara sem enxergar. Continuei do jeito que estava até que ele se irritou comigo. Se irritou com a minha preguiça, com a minha falta de vontade.
Ele me mandou sair dali, mas eu não queria, eu não sabia para onde ir. Ele continuou falando, mas eu não conseguia mais ouvir - ou eu não queria.
Eu vi a luz da rua acender. Nem vi quando o céu apagou. Ele deve ter visto, mas eu não vi.
A escada é de todo mundo, não sei porque ele me manda sair. Não tenho mais paciência para perguntar - ou talvez me falte a voz - e ele também não se incomoda em me explicar. Eu continuo sem saber, e continuo ali.
O frio começa a me incomodar, ele está de casaco e se recusa a me emprestar, talvez eu devesse mesmo sair dali. Ele acha que saí porque ele mandou, tentei dizer que foi o frio, mas ele não acreditou - ou não me ouviu.
Saí. Logo depois quis voltar, mas não me lembrava como e ele não quis me ensinar. E foi embora. Foi embora sem me ajudar.
Fiquei sozinha, agora de frente para o vento, com os cabelos voando e as bochechas rosadas pelo frio. Queria que alguém estivesse ali, mas não sabia quem chamar - ou esqueci. Então fiquei ali, esperando alguém passar. E continuo esperando. Estou cansada de esperar.

domingo, 27 de março de 2011

Leite com biscoitos

E nesses tempos tão estranhos, esmigalho os biscoitos com as mãos e os jogo no copo. Assisto enquanto eles se desmancham e vão tornando o leite em volta cada vez menos branco. Como de colher. Colher de café para fazer durar mais. Sempre quero que dure mais.
Aproveito a liberdade da solidão para não me importar em pegar um guardanapo quando sinto o leite escorrendo pelo canto dos lábios. Limpo com as costas das mãos e seco na fronha do travesseiro. O travesseiro no qual encosto a cabeça para dormir.
Você nunca pode comer na rua do mesmo jeito que come em casa. Você não deveria compartilhar esses hábitos tão particulares também, mas às vezes você conhece algumas pessoas que parecem entender, e então você fala. Você conta suas nojeiras mais secretas, sem imaginar que, aqueles com olhos tão compreensivos, nunca comeram uma coxinha de frango sem usar talheres.
Pessoas que fingem te entender, mas que não conseguem disfarçar a expressão de asco ao te ouvir.
Na rua você tem que estar com o cabelo penteado, com as roupas sem manchas, com os cotovelos longe da mesa e os garfos e facas alinhados em volta do prato. Na rua você tem que ser alguém bem educado, bem resolvido, bem vestido.
Por isso, não quero te encontrar em um restaurante. A rua tira um pouco do que cada um é de verdade. Eu já separei uma enorme pilha de filmes para assistirmos, mas você vai ter que parar de me oferecer seus lenços para eu limpar meu queixo sujo de molho de tomate. Estamos em casa, de pijamas listrados, com golas duras de pasta de dente. Mangas compridas limpas não têm a mesma graça. Usar talheres em casa não sacia a fome. Você dizer que me entende pelas fotos que mostrei é hipocrisia. Você não vai me entender até que seja obrigado a espanar as migalhas de pão da minha cama com o antebraço. Por favor, senta, deita, se enrola na coberta e deixa que amanhã o lençol já vai estar seco.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Se você não me conhece

Se você não me conhece até agora significa apenas que não tem frequentado as confeitarias certas. Chegue no fim da tarde, arraste a cadeira vazia na minha frente e sente-se sem pedir licença. Eu não vou me incomodar em dividir meus biscoitos amanteigados com você, sempre peço o suficiente para duas pessoas. Meu café já está esfriando de tanto esperar. O garçom sempre se esquece de me trazer adoçante, resolvo deixar amargo, a culpa que o pratinho de biscoitos desperta em mim impede que eu despeje saquinhos de açúcar na minha caneca. Também não gosto da bagunça de papel rasgado na minha mesa, melando a capa do meu livro, convidando formigas a subirem nas páginas.
Espero que você não se importe em me esperar terminar esse capítulo. Detesto interromper a leitura no meio de um parágrafo, sempre acho que é no final daquela frase que estou lendo que está a informação mais importante da história, me odiaria se tivesse que pegá-la pela metade uma próxima vez.
Eu tenho algumas revistas na minha bolsa, posso deixar em cima da cadeira, talvez assim você se sinta mais à vontade para chegar perto de mim. Peça um café para minha boca não ser a única amarga durante a conversa, me olhe nos olhos mas não repare nas minhas olheiras, invente uma história que não aconteceu se lhe faltar assunto, eu prometo que não vou dizer nada se perceber que você está mentindo. Eu minto bastante também, espero que você goste de mim logo de cara para acreditar em todas as minhas mentiras, rir de todas as minhas tentativas para te impressionar, pegar na minha mão pálida de nervoso antes que minha pele comece a sangrar de tanto eu coçar.
Espero que sua letra seja feia e que me escreva cartas, que cante mal no chuveiro e sussurre canções antigas para me fazer dormir, que queime ovos fritos e seja do tipo que só come pizza com catchup. Eu não faço questão de conversas inteligentes, passo o dia inteiro me fingindo de culta, gostaria de ouvir alguns erros gramaticais ao chegar em casa, trocar alguns solecismos durante o jantar, cuspir migalhas de pão no seu jornal enquanto você me conta do seu dia.
Você não me conhece ainda, é verdade, mas eu não sou difícil de encontrar. Estou sempre deitada na varanda ouvindo rádio, tentando te escrever um poema, logo para você que eu nem sei o nome, pra você que fica entrando em bares e botequins e nunca pede um pão de queijo no balcão da loja em que eu estou sentada.
Eu vou ler mais um capítulo, sempre olhando por cima dos óculos para não perder o momento em que você entrar. Prometo fingir que não percebi que era você quando você entrar.

terça-feira, 8 de março de 2011

Ateísmo emocional

Quase nunca me interesso por alguém. Gostar das pessoas nunca foi um processo natural pra mim. Sou desajeitada para fazer carinho. Minha mão ou pesa demais ou fica leve a ponto de ninguém sentir. Sou dura para dar abraços, nunca sei se meus braços devem ir por cima ou por baixo. Sempre acabo sentando na cadeira em frente em vez de me encostar ao lado para conversar de perto. Minhas piadas são sem graça e meus comentários desnecessários.
Talvez eu fique nervosa, talvez eu queira impressionar demais, ou talvez eu simplesmente não me importe.
Não existe muito espaço na sociedade para pessoas que não se importam. Não se importar corresponde ao não acreditar em Deus no mundo dos sentimentos. Se eu precisasse traduzir essa minha falta de interesse de alguma forma, diria exatamente que sou uma agnóstica do amor. Não me digo atéia pois, assim como em relação à questões espirituais, não descarto totalmente a possibilidade de que exista, mas sim, se houvessem apenas dois lados, o do crer e o do não crer, eu ficaria com o que eu chamo de ateísmo emocional.
O grande problema é que os ateus são parte de uma das minorias que mais sofre preconceito nessa sociedade predominantemente crente em que vivemos. Ateus sofrem mais repulsa do que prostitutas e usuários de crack (sério) e, dessa forma, não seria diferente em relação aos que não acreditam no amor. Se Deus é amor, como todos já ouviram dizer por aí, você não acreditar nesse último o torna alguém tão desprovido de caráter, perante a sociedade, quanto aqueles sem religião.
Demorei muito tempo para sair desse armário da descrença. Mais pela falta de argumentos para me explicar do que pelo medo de julgamentos. Sim, mea culpa, eu deixei de acreditar no amor sem dá-lo muitas chances. Mas, hoje em dia, não me adianta muito ouvir palestras sobre a pessoa certa e sobre a beleza de se construir um relacionamento. Está tudo trancado na minha grande caixa de dúvidas que guardo embaixo da cama e que torço para que algum homem do saco leve por engano. Algumas pessoas simplesmente não tem tantas chances para dar.
Eu ainda estou aberta a me apaixonar, assim como estou aberta à possibilidade de Deus me chamar pra ter uma conversa numa clareira no meio do deserto para me fazer acreditar nele, já disse que não sou xiita em relação a nada. Porém, tudo para mim parece utópico demais, idealizado demais, enjoativo como um vidro de cereja em caldas.
Me interesso nas pessoas, nas suas histórias, nas metáforas e outras figuras de linguagem que elas têm para me oferecer, porém é difícil eu me interessar por alguém. Gostaria que ninguém me dissesse no que eu devo ou não devo acreditar a não ser que tenha como me provar errada. Espero realmente que alguém me prove errada.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Sinestesia

Músicas que ficam com cheiro de gente. Acordes que parecem envolvidos em uma nuvem de perfume conhecido, aquele perfume que um dia já ficou grudado no seu travesseiro. Talvez nem seja perfume, talvez seja o cheiro da pele, isso, o cheiro da pele que se acostumou com as fronhas e lençóis e, por dias, semanas, talvez meses, ficou ali. O cheiro que ficou ali até que você tivesse coragem de trocar a roupa de cama. Trocar a roupa de cama é o momento em que você de prepara para se libertar daquele cheiro, talvez nunca mais senti-lo novamente. Você não espera que ele vá estar em suas músicas também. Não espera ouvir um cheiro, sentir uma música pelo olfato, quase tateando as cifras através de lembranças.
Ensaboar não adianta, o cheiro não está em você, ele faz parte de você. Digo isso com a pele esfolada. Achei realmente que estava em mim. Quis deletar as músicas. Essas músicas insuportavelmente cheirando a gente. Gente mofada, guardada, amassada.
Ouço o cheiro como se o quisesse de volta na gola do meu pijama. Nem uso mais pijama. Parece, na verdade, que o quero em todas as minhas roupas.
Quero mesmo é arrancar um pedaço da música. Rasgá-la como um vestido velho e guardar no bolso. Guardar no bolso e nunca colocar o pedaço de pano com cheiro de pele para lavar. Já lavei uma vez. Não posso correr o risco de perder seu perfume na água corrente de novo. Mesmo que ele esteja apenas em forma de música, mesmo que ele nem exista mais, mesmo que você esteja usando outro perfume agora, que seu cheiro esteja diferente, não me importa. Esse cheiro é meu de novo, se é que já foi meu um dia.
Me contento com a melodia da voz de um cantor qualquer, me contento com a cadência quebrada enquanto não posso ter aquele cheiro velho nas minhas roupas novas, me contento em ouvir palavras que já decorei faz tempo com cheiro que só agora percebi que estava ali, ouvir palavras cantadas em voz rouca com cheiro de você.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Insensata coxinha

Memória aleatoriamente selecionada pela mente ociosa que não me sai da cabeça. A menina que tirava o frango de dentro das coxinhas antes de comer. Todo intervalo ela comprava uma generosa quantidade de coxinhas (muito mais do que eu conseguia comprar em bolinhas de queijo com meus três reais da merenda) e sentava no canto do corredor enquanto conversávamos para dissecá-las, dilacerá-las, tirar o que as tornava coxinhas.
Confesso que ficava com raiva. Falava mal do seu jeito de comer coxinhas pelas costas e toda vez sugeria que comprasse outro salgadinho já que, obviamente, não gostava de coxinhas. Ela insistia que gostava do sabor que o frango deixava na massa da coxinha. Inaceitável, na minha opinião. Você tem que amar a coxinha por tudo o que ela é, não pode simplesmente pegar sua casquinha crocante e desprezar seu conteúdo macio e talvez não tão apetitoso. Além dessa nada inspiradora metáfora, eu tinha raiva porque era meio nojento, imagine os frangos espalhados, deixando o papel e os dedos engordurados, de forma que, toda vez que destruía uma nova coxinha, ela esfregava o frango que ia ser desprezado na borda do saquinho e em seguida lambia os dedos, criando um ciclo de frango, gordura e saliva nada atraente de se observar. Eu sentia que não era obrigada a presenciar tal cena impublicável em um momento tão etéreo do dia quanto a hora do recreio.
Além disso, nessa época da minha vida eu ainda não tinha aprendido a me apaixonar pelas esquisitices de cada um. Não que olhando para trás agora eu me consiga definir isso como uma mania charmosa, claro, mas esse é um caso muito particular, na maioria das vezes consigo sim transformar TOC em charme. Enfim, você só aprende a amar o próximo pelos seus pequenos defeitos depois de uma determinada cota de bullying que sofre na vida e, na quarta série do fundamental, eu estava do outro lado do palco do sofrimento escolar, inventando apelidos e colando papel cartão em mochilas alheias.
Pois é, nessa época, se eu fosse uma coxinha, eu seria aquela última da bandeja, que estava tão apetitosa quanto as outras mas que, como ninguém comeu, ficou murcha e perdeu o dourado cativante que faz com que as pessoas queiram comprá-la.
No ginásio eu estava num estágio mais avançado ao de uma coxinha murcha, eu me tornei um risole de fim de festa. E foi então que aprendi a observar mais as pessoas. Foi então que aprendi a me apaixonar exatamente por tudo aquilo que se tornava motivo de piadas para os outros pré-adolescentes sedentos por uma humilhação pública. Foi então que comecei a não julgar alguém apenas por achar estranho a forma como lida com suas coxinhas.
Não é justo rir por detrás de portas de madeira, não é decente definir o sentido de ausência como padrão para todos. Talvez a falta do frango fosse a plenitude da sua coxinha, e talvez eu até esteja falando isso sem um pingo de ironia...
Ou talvez eu esteja superanalisando um comportamento mimado de filha única de colégio particular da zona sul do rio de janeiro como algo realmente digno de sequer ser analisado. Enfim, eu teria comprado bolinhas de queijo.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Silêncio pra falar de amor.

Eu não sei falar de amor. Não acho que saiba viver o amor também, mas falar dele é ainda mais difícil. O descontrole, a falta de foco, o estômago petrificado. Tudo muito desconfortável para ser traduzido em palavras.
Estranho como algo que provoca tantas sensações desagradáveis possa ser tão desejado. Desejado pelos outros. Eu nunca desejei o amor. Nas minhas brincadeiras de boneca mais inocentes ninguém jamais via Barbie se casando com Ken. Minhas Barbies eram promíscuas, alcoólatras, travestis, deficientes físicas, tudo, menos apaixonadas. Minhas coleguinhas de play ficavam horrorizadas, convidavam minha Barbie para um cruzeiro no novo barco de plástico que ganharam de natal. Um cruzeiro que era para ser de sol e água de côco e eu transformava em um transatlântico para tráfico de prostitutas, mais pela minha falta de compreensão da palavra TRANSAtlântico do que por qualquer outra coisa, mas ainda assim, um grande desvio.
Logo pararam as brincadeiras, saíram as Barbies e começaram os flertes no play com os meninos que voltavam suados do futebol. Eu achava legal, achava bonito correr com garrafinhas de água para recebê-los fora da quadra, mas, quando as amiguinhas começavam a escrever cartinhas de amor e dizer o quanto estavam apaixonadas, eu me colocava a fazer colares de miçanga pra vender na porta do supermercado da rua. Ficava desconfortável com aquelas demonstrações de amor tão escancaradas, tão sinceras, tão fora da minha realidade.
Isso começou a mudar no dia que resolvi mandar meu primeiro cartão para um menino. Eu não gostava dele, mas queria fazer parte de todo esse clube de meninas que morriam de amores pelos cantos. Era seu aniversário e ele tinha ido na casa da minha avó para ter uma aula particular de matemática ou algo assim. Achei que ia ser uma ótima idéia lhe mandar um cartão com um QUIZ: "VOCÊ GOSTA DE MIM? ( ) SIM ( ) COM CERTEZA ( ) MUITO". Coloquei em cima do seu caderno e me escondi atrás do sofá (pois é), apenas para desejar morrer quando ele me devolveu o cartão com uma nova opção criada a caneta e marcada de outra cor para reforçar a idéia "(x) NÃO". Minha primeira rejeição. De caneta vermelha ainda. Meio triste que ele achou que precisava usar vermelho. Enfim, não preciso nem dizer que fiquei apaixonada. Pedia pra minha avó tirar fotos dele sempre que ia ter aula e guardava todas no meu diário, escrevia seu nome de batom no espelho, tudo isso. E então, no dia que ele resolveu que ia me chamar pra tomar um sorvete eu simplesmente... brochei. Disse que não gostava mais dele, e não gostava mesmo. Nunca tinha gostado. Estava encantada pela idéia de não poder tê-lo pra mim, nunca tinha sido amor, eu só achava que era. Era cedo, eu ainda podia ficar confusa quanto ao conceito de amor, né?
Mas depois disso, minhas inadequações e insucessos amorosos só foram crescendo e se desenvolvendo, permitindo que minhas inseguranças e neuroses se multiplicassem como gremlins atirados na água. Continuei confusa em relação ao amor.
Acabei descobrindo o que era. Acabei vivendo com algumas borboletas no estômago por tempos. Apesar de não ter sido o que eu queria, fui obrigada a viver com elas. E ainda sou. Me apaixono por quem não quero e jamais desejo aqueles que demonstram gostar de mim de alguma forma. Mas ainda não sei explicar o que é. Ainda não sei falar sobre ele, ainda preferia que ele não existisse, ainda acho mais bonito viver uma série de desventuras sexuais do que uma doída história de amor (sempre é meio doída), mas ele está aí, todo dia, brincando de me fazer de boba.
Não sei falar de amor, talvez nunca aprenda, mas sei sonhar. Nossa, quão pateticamente utópica e ridiculamente idealista foi essa frase? Mas é verdade. Sei viver o desconforto com altivez dentro do meu inconsciente. Sei acreditar que um dia vou parar de acreditar na rejeição como um gatilho para o amor. Já aprendi a colocar minhas Barbies para dormir de conchinha depois de longa viagem no mar. Só me falta alguém que não cobre de mim o que eu não sei, que é falar. Preciso de alguém que aceite meu amor torto sem perguntas, sem cobranças, sem toda a carga emocional dessa realidade chata e sufocante.